Parou. Acostumara-se tanto aos uivos dos lobos gigantes que quase já não os ouvia… Mas uma parte dele, um instinto qualquer de caçador, tinha ouvido sua ausência.
Urzen estava em pé junto à porta, fora do quarto, um homem vigoroso com um escudo redondo atirado sobre as costas.
– Os lobos estão calados – disse-lhe Theon. – Vá ver o que estão fazendo, e volte logo – pensar nos lobos gigantes soltos o deixou nervoso. Lembrava-se do dia no bosque dos lobos em que os selvagens tinham atacado Bran. Verão e Vento Cinzento tinham-nos feito em pedaços.
Quando cutucou Wex com a ponta da bota, o rapaz sentou-se e esfregou os olhos.
– Verifique se Bran Stark e o irmão mais novo estão na cama. Depressa!
– Senhor? – Kyra chamou sonolentamente.
– Durma, isto não lhe diz respeito – Theon serviu-se de uma taça de vinho e bebeu. Estava o todo tempo à escuta, esperando ouvir um uivo.
Wex foi o mais rápido a voltar, balançando a cabeça de um lado para outro. Praguejando, Theon apanhou a túnica e os calções do lugar onde os tinha deixado cair no chão, na pressa de se atirar sobre Kyra. Sobre a túnica vestiu um justilho de couro com rebites de ferro, e prendeu uma espada e um punhal na cintura. O cabelo estava desordenado como a floresta, mas tinha preocupações maiores.
Àquela altura, Urzen tinha retornado.
– Os lobos estão desaparecidos.
Theon disse a si mesmo que tinha de ser tão frio e cauteloso como Lorde Eddard.
– Acorde o castelo – ordenou. – Reúna-os no pátio, todos, veremos quem falta. E diga a Lorren para fazer uma ronda pelos portões. Wex, comigo.
Perguntou a si mesmo se Stygg já teria chegado a Bosque Profundo. O homem não era um cavaleiro tão bom como dizia ser; nenhum dos homens de ferro era grande coisa sobre a sela, mas já havia passado bastante tempo. Asha podia perfeitamente estar a caminho.
O quarto de Bran estava vazio, tal como o de Rickon, meia-volta de escada abaixo. Theon amaldiçoou-se. Devia ter colocado um guarda vigiando-os, mas tinha achado mais importante ter homens patrulhando as muralhas e protegendo os portões do que servindo de amas a um par de crianças, uma delas aleijada.
Ouviu soluços lá fora quando as pessoas do castelo foram sendo arrancadas das camas e levadas para o pátio.
– Não o quero mal – tinha dito ao septão antes de atirarem-no ao poço –, mas você e os seus deuses já não têm lugar aqui – era de se pensar que os outros ficariam gratos por não ter escolhido um deles, mas não. Gostaria de saber quantos deles teriam feito parte daquela conspiração contra si.
Urven regressou com Lorren Negro.
– O Portão do Caçador – Lorren falou. – É melhor que venha ver.
O Portão do Caçador estava convenientemente situado perto dos canis e das cozinhas. Abria-se diretamente para campos de cultivo e florestas, permitindo aos cavaleiros ir e vir sem terem de passar primeiro pela vila de Inverno, e por isso era o favorito dos grupos de caçadores.
– Quem tinha a guarda aqui? – Theon quis saber.
– Drennan e Squint.
Drennan era um dos homens que tinha violado Palla.
– Se deixaram os garotos fugir, juro que dessa vez arrancarei mais do que um pedaço de pele das costas deles.
– Não vai ser preciso – Lorren Negro disse concisamente.
E não era. Encontraram Squint flutuando no fosso, de barriga para baixo, com as entranhas boiando atrás dele como um ninho de serpentes brancas. Drennan jazia seminu na guarita, na sala compacta onde se manobrava a ponte levadiça. Sua garganta tinha sido cortada de orelha a orelha. Uma túnica esfarrapada escondia as cicatrizes meio saradas de suas costas, mas suas botas estavam espalhadas pelo chão e os calções embaralhados em volta dos pés. Havia queijo numa pequena mesa perto da porta, ao lado de um jarro vazio, e duas taças.