Reuniram-se junto ao Portão do Caçador no momento em que os primeiros raios pálidos de sol roçaram o topo da Torre do Sino, com o hálito congelando no frio ar da manhã. Gelmarr se equipara com um machado de cabo longo, cujo alcance lhe permitiria atacar antes que os lobos caíssem sobre ele. A lâmina era suficientemente pesada para matar com um único golpe. Aggar usava caneleiras de aço. Fedor chegou trazendo uma lança para javalis e uma sacola de lavadeira cheia até estourar com só os deuses sabiam o quê. Theon tinha seu arco; não precisava de mais nada. Uma vez salvara a vida de Bran com uma flecha. Esperava não ter de roubá-la com outra, mas, se precisasse, faria.
Onze homens, dois garotos e uma dúzia de cães atravessaram o fosso. Para lá da muralha exterior, os rastros eram fáceis de ler no terreno macio; as pegadas dos lobos, o passo pesado de Hodor, as marcas menos profundas deixadas pelos pés dos dois Reed. Uma vez debaixo das árvores, o solo pedregoso e as folhas caídas tornavam o rastro mais difícil de ver, mas aí a cadela vermelha de Farlen já tinha o cheiro. O resto dos cães seguia logo atrás, com os de caça farejando e ladrando e um par de monstruosos mastins fechando a retaguarda. Seu tamanho e ferocidade poderiam fazer toda a diferença contra um lobo gigante encurralado.
Teria pensado que Osha correria para sul, em busca de Sor Rodrik, mas os vestígios seguiam para norte-noroeste, em direção ao coração da mata de lobos. Theon não gostava nada daquilo. Seria uma amarga ironia se os Stark se dirigissem a Bosque Profundo e caíssem justamente nas mãos de Asha.
Filetes de névoa pálida abriam caminho por entre as árvores. Árvores-sentinela e pinheiros-marciais cresciam densos por ali, e não havia nada tão escuro e sombrio como uma floresta de vegetação perene. O terreno era irregular, e as agulhas caídas disfarçavam a fofura da turfa e tornavam o chão traiçoeiro para os cavalos, por isso eram obrigados a avançar devagar.
Meistre Luwin trotou até junto dele enquanto seguiam uma trilha de caça ao longo da borda de uma ravina:
– Até agora, a caçada parece não se distinguir de andar a cavalo pela floresta, senhor.
Theon sorriu.
– Há semelhanças. Mas na caçada há sangue no fim.
– Terá de ser assim? Essa fuga foi uma grande loucura, mas não será misericordioso? Aqueles que procuramos são seus irmãos adotivos.
– Nenhum Stark, a não ser Robb, agiu fraternalmente comigo, mas Bran e Rickon têm mais valor para mim vivos do que mortos.
– O mesmo se aplica aos Reed. Fosso Cailin fica no limite dos pântanos. Lorde Howland pode transformar a ocupação de seu tio numa visita ao inferno se decidir fazê-lo, mas enquanto você tiver os seus herdeiros, terá de segurar a mão.
Theon não pensara naquilo. A bem da verdade, quase não tinha pensado nos homens de lama, além das vezes que olhou Meera e pensou se ainda seria donzela.
– Pode ter razão. Vamos poupá-los se pudermos.
– E também a Hodor, espero. O rapaz é um simplório, bem sabe. Faz o que lhe é dito. Quantas vezes cuidou do seu cavalo, ensaboou sua sela, poliu sua cota de malha?
Hodor não era nada para ele.
– Se não lutar conosco, vamos deixá-lo viver – Theon apontou um dedo para ele. – Mas se disser uma palavra acerca de poupar a selvagem, poderá morrer com ela. Prestou-me um juramento e cagou nele.
O meistre inclinou a cabeça:
– Não arranjo desculpas para perjuros. Faça o que tiver de fazer. Agradeço-lhe a misericórdia.