– A Dançarina continua na cocheira?
– Dançarina? – Fedor franziu a testa. – Aggar diz que os cavalos estão todos lá. Só falta o atrasado.
– Bran e Rickon fugiram – disse às pessoas do castelo, observando seus olhos. – Quem sabe para onde foram? – ninguém respondeu. – Não podem ter escapado sem ajuda – Theon prosseguiu. – Sem alimentos, roupas, armas – trancara todas as espadas e machados de Winterfell, mas não havia dúvidas de que algumas lâminas tinham sido escondidas dele. – Quero o nome de todos os que os ajudaram. Todos aqueles que fingiram não ver – o único som era o do vento. – À primeira luz do dia, pretendo trazê-los de volta – enfiou os polegares no cinto da espada. – Preciso de caçadores. Quem quer uma boa pele de lobo quentinha para ajudar a passar o Inverno? Gage? – o cozinheiro sempre o saudara alegremente quando voltava da caça, perguntando se teria trazido alguma peça de primeira para a mesa, mas agora não tinha nada a dizer. Theon virou-se e caminhou para o outro lado, perscrutando os rostos em busca do mínimo indício de um conhecimento culposo. – A floresta não é lugar para um aleijado. E Rickon, novo como é, quanto tempo durará lá fora? Ama, pense em como ele deve estar assustado – a velha tinha tagarelado com ele durante dez anos, contando suas infindáveis histórias, mas agora olhava-o de boca aberta como se fosse um estranho. – Podia ter matado todos os seus homens e dado suas mulheres aos meus soldados para que fizessem com elas o que bem entendessem, mas, em vez disso, os protegi. É esse o agradecimento que me dão? – Joseth, que cuidara de seus cavalos; Farlen, que lhe ensinara tudo o que sabia sobre cães de caça; Barth, a mulher do cervejeiro que tinha sido a sua primeira… nem um deles o encarava.
Fedor aproximou-se:
– Arranque suas peles – exortou, com os lábios grossos brilhando. – Lorde Bolton costumava dizer que um homem nu tem poucos segredos, mas um homem esfolado não tem nenhum.
Theon sabia que o homem esfolado era o símbolo da Casa Bolton; muito tempo antes, alguns de seus senhores chegaram até a usar a pele de inimigos mortos como manto. Alguns Stark tinham terminado assim. Supostamente, tudo aquilo terminara havia mil anos, quando os Bolton dobraram os joelhos a Winterfell.
– Não haverá esfolamentos no Norte enquanto eu governar Winterfell – disse Theon em voz alta.
O céu estava se tornando cinzento sobre as muralhas do castelo. A alvorada não devia estar distante.
– Joseth, sele o Sorridente e um cavalo para você. Murch, Gariss, Poxy Tym, vocês vêm também – Murch e Gariss eram os melhores caçadores no castelo, e Tym era um bom arqueiro. – Aggar, Rednose, Gelmarr, Fedor, Wex – precisava dos seus para defender a retaguarda. – Farlen, vou querer cães de caça, e vou querê-lo para cuidar deles.
O grisalho mestre dos canis cruzou os braços.
– E por que eu me preocuparia em ir à caça de meus senhores legítimos, e ainda por cima crianças?
Theon se aproximou.
– Agora sou eu o seu senhor legítimo, e o homem que mantém Palla a salvo.
Viu o desafio morrer nos olhos de Farlen.
– Sim, senhor.
Dando um passo para trás, Theon olhou em volta para ver quem mais poderia acrescentar.
– Meistre Luwin – anunciou.
– Eu não sei nada de caça.
– Então já é mais que hora de aprender.
– Deixe-me ir também. Quero esse manto de pele de lobo – um garoto, que não era mais velho do que Bran, deu um passo adiante. Theon precisou de um momento para se lembrar dele. – Já cacei um monte de vezes – disse Walder Frey. – Veados vermelhos e alces, e até javalis.
O primo riu dele.
– Ele acompanhou o pai numa caçada ao javali, mas nunca o deixaram chegar perto do animal.
Theon olhou o garoto com uma expressão de dúvida.
– Venha se quiser, mas se não conseguir nos acompanhar, não pense que vou servir de ama-seca – voltou-se novamente para Lorren Negro. – Winterfell é seu na minha ausência. Se não voltarmos, faça com ele o que quiser –