"Se assim é, por que razão andam a queimar bandeiras alemãs em Atenas? A troca de insultos entre Alemães e Gregos é uma coisa muito grave e mostra, para quem tivesse dúvidas, que o euro não está a ser o garante da paz, mas uma vulnerabilidade que provoca ameaça de guerra. Este problema é muito sério e tem de ser resolvido para que a moeda única não fracasse. O nó górdio encontra-se na legitimidade dos decisores. Como é possível numa democracia que um poder governe pessoas sem que elas tenham oportunidade de votar nele? Ou seja, com a transferência de poderes para o centro, o que se passa é que os governantes alemães começam a governar de facto os Portugueses sem que os Portugueses tenham tido uma palavra a dizer na eleição desses governantes alemães. Isso não pode ser. Será preciso que toda a população da zona euro tenha oportunidade de votar em quem de facto a governará. Isto significa que a zona euro terá de se tornar uma federação e qualquer político europeu se poderá candidatar a seu líder executivo, fazendo 345
campanha na Alemanha, em França, Portugal e na Itália da mesma maneira que os candidatos a presidente dos Estados Unidos fazem campanha na Florida, no Connecticut, no Ohio e no Texas."
Raquel mergulhou os dedos no cabelo e massajou o couro cabeludo.
"Tudo isso é muito complexo", desabafou. "Achas que só nessas condições o euro será viável?"
"Não vejo outra maneira. Se não se lidar com estes problemas todos, o euro entrará em colapso de um momento para o outro.
Pode levar anos ou pode ser já amanhã, mas acabará por cair ou por se fracturar. As contradições têm de ser resolvidas."
"Imaginemos que as debilidades são desfeitas e o euro sobrevive", sugeriu a agente da Interpol. "Os problemas de Espanha e de Portugal e de toda a periferia são superados?"
O historiador cruzou os braços e, inclinando a cabeça para o lado, fitou um longo momento a sua interlocutora.
"A primeira coisa que tens de interiorizar é que não há milagres", disse. "Uma análise a mais de duzentas crises bancárias seguidas de crises da dívida permite-nos tirar algumas conclusões claras. Quando as taxas de juro de uma dívida gigantesca ficam maiores que a taxa de crescimento da economia, como está a acontecer no Club Med e noutros países, os empréstimos já não conseguem ser pagos. Nesses casos, as crises da dívida terminam com uma desvalorização da moeda ou dos custos de trabalho, ou com uni default. Independentemente do que os demagogos digam, qualquer destas soluções é dolorosa e envolve muita austeridade.
Não se conhece um único caso na história em que um desendividamento seja feito sem austeridade. Nem um."
"Portanto, a austeridade é inevitável."
"Infelizmente, sim. Repara, desde o aparecimento do euro e até à crise das dívidas soberanas, a Alemanha tornou-se trinta por cento mais produtiva que a Grécia. Quer isto dizer, e por incrível que 346
pareça, que produzir um bem na Grécia custa trinta por cento mais do que produzi-lo na Alemanha. O que é válido para a Grécia é válido para a generalidade do Club Med, embora com percentagens diferentes consoante os países. Para neutralizar a diferença em relação à Alemanha, e não podendo desvalorizar a moeda nem querendo avançar para o default, o Club Med terá de baixar significativamente os custos do trabalho, o que, receio bem, significa redução de salários. Como os salários descem, o consumo desce e as receitas fiscais também, o que provoca recessão e mais défice, obrigando a baixar ainda mais os salários, o que provoca nova queda do consumo e das receitas fiscais e assim sucessivamente."
"Mas desse modo entra-se num ciclo vicioso..."