"Pois é, mas qual a alternativa? O ajustamento, receio bem, é sempre doloroso e não há soluções boas." Ergueu a mão para sublinhar o ponto. "Vou repetir: não há soluções boas. Digam os demagogos o que disserem, lembra-te de que se chegou a um ponto em que não há soluções boas. A opção diante do Club Med e de todos os países excessivamente endividados são soluções muito más e soluções péssimas. Não existem milagres nem varinhas mágicas, todos os caminhos estão pejados de espinhos. O estudo de mais de duzentas crises bancárias seguidas de crises de dívida mostra que o ajustamento, qualquer que seja o caminho seguido, é sempre doloroso e o desendividamento nunca é feliz. Nunca. São sempre precisos vários anos para desendividar uma economia e o desemprego cresce em média durante quatro anos seguidos, enquanto o crescimento económico permanece anémico em média durante uns seis ou sete anos. Ao longo desse período há menos crédito disponível e o investimento privado é muito baixo."

"Portanto, os problemas de Portugal e de Espanha não desaparecerão em breve..."

"Com certeza que não."

"Nem se o Club Med sair da moeda única?"

A pergunta era importante, crucial mesmo, e Tomás levou um momento 347

a equacionar a melhor forma de lhe responder.

"Para determinar uma coisa dessas, temos de ler correctamente a situação", acabou ele por dizer. "Por exemplo, a economia portuguesa está muito desequilibrada porque andou sempre a importar muito mais do que a exportar. Para a reequilibrar é melhor estar no euro ou fora dele?"

Raquel estreitou as pálpebras, ponderando a resposta correcta.

"Estar no euro parece-me melhor", acabou por responder. "A moeda única funciona como uma fortaleza e protege-nos das tempestades."

"Ai sim? Então porque não protegeu?"

A espanhola hesitou.

"Quer dizer... de certo modo protegeu, não protegeu? Olha para o que aconteceu à Islândia. Os Islandeses foram imediatamente arrasados pela crise financeira e nós não. O mesmo sucedeu com os países bálticos."

"É verdade", assentiu o historiador. "Mas onde estão os Islandeses agora? A recuperar. Onde estão os bálticos agora? A recuperar. E onde estamos nós?"

A pergunta ficou a flutuar no ar, perversa e insinuante, fazendo o seu caminho na mente de Raquel.

"Achas que é melhor estar fora do euro?"

Tomás enlaçou as mãos, ganhando balanço para atacar o problema.

"Como sabes, os desequilíbrios que estamos a sofrer sempre existiram nas nossas economias", lembrou ele. "É frequente importarmos mais do que exportamos e volta e meia temos de corrigir essa situação. Se assim é, por que razão está esse processo agora a ser mais difícil? Qual a diferença em relação ao passado?"

"O euro?"

"A diferença, minha linda, é que já não controlamos a nossa moeda", disse Tomás, respondendo à sua própria pergunta. "Repara, tal como as pessoas, os países não produzem tudo o que consomem.

Produzem umas coisas que vendem ao exterior e, com o dinheiro que ganham, compram o que não produzem. Sempre que as importações 348

excedem as exportações, qual é a solução? Baixar os custos dos nossos produtos para os tornar mais apetecíveis e assim venderem-se melhor. Mas como se baixam esses custos?"

"Baixando os salários, já o explicaste."

Tomás abriu as mãos, num gesto resignado.

"Infelizmente, assim é!", concedeu. "Há uma subtileza, no entanto, que tens de entender. Antigamente, quando tínhamos as nossas moedas, os salários baixavam-se através de mecanismos monetários: imprimíamos dinheiro e isso gerava inflação. Vamos imaginar que tínhamos uma inflação de trinta por cento. Os governos chegavam junto dos trabalhadores e diziam: eh pá, vocês estão cheios de sorte, vamos dar-vos quinze por cento de aumento!

Quinze por cento? Toda a gente ficava contente. Ena, que grande aumento! O que as pessoas se esqueciam é que a inflação era de trinta por cento, o que significava que os seus salários tinham na verdade diminuído quinze por cento. Com essa redução invisível dos salários, os nossos produtos ficavam mais baratos e vendiam-se melhor no estrangeiro. Por outro lado, ao imprimir dinheiro estávamos a desvalorizar a moeda, o que tornava os produtos estrangeiros mais caros e menos acessíveis. Diminuíam assim as importações."

"Pois, estou a ver", murmurou Raquel. "Mas já não temos uma moeda só nossa, pois não?"

O historiador esboçou uma expressão apreciativa.

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