"Sabes, a grande dificuldade para já é determinar exactamente qual a parte da crise que é responsabilidade da entrada da China no mercado mundial e da consequente desindustrialização do Ocidente e qual a parte que é a dificuldade das nossas economias em funcionarem dentro de uma moeda forte. Se chegarmos à conclusão que a culpa é do euro, o grande desafio será dar o salto mental." Colou a ponta do indicador às têmporas.

"Numa tal situação os nossos políticos irão resistir, vão dizer que o euro é que é bom, uma saída será uma catástrofe e coisa e tal, e andaremos a perder tempo precioso." Mostrou os dentes. "É um pouco como quando temos uma dor de dentes, estás a ver? A dor significa que existe um dente estragado. Como temos medo de ir ao dentista, vamos suportando a dor dia após dia, até ao momento em que ela se torna insuportável e acabamos por nos decidir a enfrentar o horror do 377

dentista e a resolver a coisa de vez. Claro que teria sido melhor ter ido ao dentista mais cedo, não é verdade? Isso ter-nos-ia poupado muito sofrimento posterior, mas os seres humanos comportam-se mesmo dessa maneira, fogem a um acto muito doloroso e adiam-no enquanto podem.

A crise também é assim. Um dia, após crise atrás de crise, e sem vermos as coisas melhorarem significativamente, atingiremos um ponto de dor insuportável que levará alguém a cair em si e a tornar enfim a decisão que se impunha há muito tempo."

"Achas então que vamos deixar arrastar a decisão?"

"A não ser que os acontecimentos obriguem a uma resolução imediata, será isso o que acontecerá", rematou. "Começaremos por escolher um horror sem fim, até ao momento em que percebermos que é preferível um fim horrível."

"Saindo do euro, passamos pois a imprimir moeda e, através da inflação assim gerada, baixamos os salários de uma forma invisível.

Ficaremos então muito melhor, não é?"

Tomás fez uma careta, desconfortável com a conclusão.

"Repito que não há soluções milagrosas e que estamos perante opções muito más e opções péssimas", insistiu. "A impressão de dinheiro para pagar as dívidas é a solução mais fácil e mais atraente para os políticos, mas também muito perigosa e, atenção, só funciona a curto prazo. É

preciso lembrar que a inflação quase só existe devido à excessiva impressão de dinheiro. Quando há demasiado dinheiro a circular, o dinheiro perde valor e os produtos tornam-se mais caros. Isso obriga a que se imprima mais dinheiro, encarecendo os produtos ainda mais, e entra-se assim numa espiral inflacionista. Um estudo de doze episódios de hiper-inflação mostra que todos eles têm em comum a impressão excessiva de dinheiro para pagar défices monstruosos."

"É um preço que teremos de pagar para nos vermos livres da dívida..."

"Pois é, mas a prazo surgem dois efeitos que dificultam o pagamento da dívida através desta solução. O primeiro é que os sindicatos exigem 378

que se indexem os aumentos salariais à inflação e as próprias empresas passam a fazer negócios contratualmente ligados à inflação, de modo que uma subida na inflação corresponda a uma igual subida nas prestações. O

segundo efeito é que os estados só recebem os impostos dos cidadãos uma vez por ano, o que faz com que, na altura em que o fisco arrecada determinada quantia e algum tempo depois, quando a começa a gastar, esse dinheiro já valerá muito menos. O objectivo do exercício acaba assim derrotado. Daí também que os Alemães rejeitem tal solução. Eles sabem que a prazo a inflação é exclusivamente destruidora de riqueza."

"Mas não foram os Americanos e os Britânicos que andaram a imprimir dólares e libras à doida?"

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"É verdade", assentiu Tomás. "O próprio Banco Central Europeu começou a fazer isso de uma maneira camuflada, para consternação dos Alemães."

"A inflação não disparou..."

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