"Já te disse, cortamos o cabelo", insistiu o historiador com o mesmo sorriso. "Chama-se haircut e significa um default parcial. Em 2012 a Grécia impôs aos credores privados que lhe perdoassem mais de metade da dívida, não foi? Isso foi um haircut. Em geral os default não são totais, mas parciais. A Grécia chamou os credores e disselhes: meus amigos, chegámos ao fim da linha, nós temos culpa porque contraímos dívida que agora não conseguimos pagar, vocês têm culpa porque nos emprestaram dinheiro sem avaliarem devidamente se tínhamos condições de vos pagar. Portanto temos de resolver isto de forma que todos sejam penalizados pelos seus erros. Ou seja, a Grécia paga a dívida, mas só paga uma parte. Os credores recebem o dinheiro, mas só recebem uma parte." Abriu as mãos, como se tivesse acabado a demonstração. "É isso um haircut."

"Ou seja, as duas partes ficam tosquiadas..."

"Nem mais. E assim se pode sair do euro de uma forma que, sendo péssima, não é totalmente catastrófica. Todos os que cometeram erros, países e bancos, pagam a sua quota-parte."

"Mas esse haircut não é uma forma de default?"

"Com certeza", confirmou Tomás. "O incumprimento parcial de Portugal, contudo, é inevitável. O mesmo é verdadeiro para a Irlanda, a Espanha e, se as coisas correrem mal, a Itália. Sabes, a crise não se resolve sem austeridade, mas também não se resolve só com austeridade. Em Portugal foram aumentados os impostos e feitos cortes na saúde, na educação, na 375

segurança social, nos subsídios e nos salários. Quanto é que se arrecadou com estas medidas de austeridade? Nove mil milhões de euros. Quanto é que Portugal pagou em juros da dívida, por exemplo ao longo de 2012?

Mais de oito mil milhões de euros. Ou seja, toda a austeridade serviu apenas praticamente para pagar os juros da dívida, não para pagar a dívida propriamente dita. E como as medidas de austeridade provocaram recessão, as receitas dos impostos baixaram, agravando assim o problema. Esta trajectória é insustentável. Lá diz o velho princípio de economia: o que é insustentável não se sustentará. Por culpa de Portugal, que se endividou para além das suas possibilidades, e por culpa dos bancos internacionais, que na sua ganância lhe emprestaram dinheiro sem cuidarem de verificar se o país tinha condições para o devolver na íntegra, chegámos a um beco sem saída e todos, incluindo os bancos imprevidentes, vão ter de pagar a factura. Mais cedo ou mais tarde terá de haver um acordo e terá de se proceder a um haircut da dívida portuguesa."

"Há aí um problema", observou Raquel. "Li no jornal que, quando há um incumprimento, durante muitos anos nenhum banco internacional volta a emprestar dinheiro ao país incumpridor."

"Balelas!", devolveu o historiador. "Os bancos querem é fazer dinheiro e investem onde vêem oportunidades. Os estudos mostram que, depois de um incumprimento, em geral os países voltam aos mercados entre um e cinco anos depois do default."

Os esclarecimentos pareceram satisfazer Raquel, que acenou afirmativamente. De repente imobilizou-se, assaltada por uma dúvida.

"Depois de um país sair do euro, de quanto tempo precisa a economia para recuperar?"

"Depende do que o país fez à dívida", sublinhou Tomás. "A simples saída do euro não resolve o problema, uma vez que se trata de uma crise da dívida, que tem na raiz a perda de competitividade perante mercados emergentes como a China, pelo que são estes dois problemas, dívida e falta de competitividade, que têm de ser 376

resolvidos. Caso aproveite a saída do euro para limpar a dívida e recuperar a competitividade, o país passa um ano muito mau, mas a recuperação começa logo a seguir. O abandono de zonas monetárias por parte de alguns países não é, aliás, nenhuma novidade na história do mundo. O caso da Argentina, por exemplo, é muito semelhante ao do Club Med e dá-nos algumas orientações úteis. Tal como nós vivemos colados ao euro, a Argentina vivia nos anos 90 colada ao dólar americano e estava a enfrentar enormes dificuldades, com recessão, dívida descontrolada, desemprego altíssimo e perturbação social, exactamente a nossa situação. Os Argentinos separaram-se do dólar em 2001, desvalorizaram o peso e, em 2002, a sua economia desatou a crescer, tendo o PIB disparado até aos sete por cento, e o desemprego caiu. Não se pode chamar a esta solução uma catástrofe, pois não?"

O olhar verde-esmeralda de Raquel incendiou-se. "Coo! Então temos mesmo de sair do euro!"

O seu companheiro de viagem soltou uma gargalhada perante este súbito entusiasmo.

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