Quando isso aconteceu carregou em todos os botões do walkie-talkie e entrou em comunicação simultânea com os três homens que espalhara na plataforma.
"Águia para Condores 1, 2 e 3."
"Sim, Águia?"
"Um minuto", anunciou. "Falta um minuto para o comboio chegar."
O tecido urbano espraiava-se para lá da via-férrea quando apareceu a plataforma com placas a indicarem Firenze. A composição abrandou ainda mais e, pressentindo o fim da viagem, os passageiros que saíam naquela estação puseram-se de pé e comprimiram-se no corredor, alinhando-se numa fila silenciosa até à porta da carruagem, as malas e os sacos nas mãos, os olhares fixos na saída.
O comboio travou e imobilizou-se por fim com um soluço e um longo suspiro. Foi nessa altura que Raquel e Tomás abandonaram o 383
quarto de banho e se juntaram à fila dos viajantes que se preparavam para desembarcar na estação de Florença.
"Puf, chegámos!", bufou ela, inclinando a cabeça para espreitar o exterior. "já não era sem tempo."
O historiador inclinou a cabeça para a sua companheira de viagem.
"Não te esqueças de me ajudar a descer as escadas, hem?"
A porta abriu-se automaticamente e os passageiros começaram a saltar para a plataforma número nove. Por causa das bagagens, o processo não se revelou tão fluido quanto desejável, mas mesmo assim foi avançando e ao fim de alguns segundos Raquel pulou para fora, pousou os dois sacos de viagem e voltou-se para trás para ajudar o português.
"Isso está mal", constatou ela, estendendo-lhe o braço. "Vamos, apoia-te em mim."
Tomás desceu as escadas muito devagar, curvado, até conseguir pousar o pé trémulo em solo firme.
"Ah, chegámos!"
Vendo o companheiro já em terra, a agente da Interpol pegou num dos sacos e esperou que ele pegasse no outro. Tomás, contudo, ignorou o saco e começou a caminhar em passos vacilantes, trôpego e com as costas curvadas. A espanhola revirou Os olhos, encanzinada, pegou também no segundo saco e apressou o passo no encalço do historiador.
"Mira, hombre, estás a exagerar um pouquito, não te parece?", protestou, mostrando os dois sacos que carregava. "Achas que sou tua criada ou quê?"
T o m á s i n d i c o u c o m o p o l e g a r a s c o s t a s c u r v a s . "Desculpa, mas não vês o meu estado?", perguntou. "Não estou em condições de carregar os sacos."
Com os lábios comprimidos, Raquel atirou às costas dele um olhar carregado de suspeita.
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"Hmm... não sei. Quer-me cá parecer que isso é tudo uma grande desculpa que inventaste para me pores a carregar esta tralha toda.
Não tens vergonha?"
O companheiro de viagem respondeu com um esgar dorido e apoiando a mo direita na região lombar.
"Ui! Isto custa!"
A chegada do comboio atraiu Balam para a porta que ligava o átrio às plataformas. Viu a composição oriunda de Barcelona estacionada na linha nove e os passageiros a desaguarem continuamente das múltiplas portas e a percorrerem a plataforma com as bagagens. Acto contínuo, os viajantes que partiam entraram para as carruagens e, instantes mais tarde, escutou o apito e o comboio recomeçou a rolar, ganhou velocidade e desapareceu para lá da gare.
Procurou os seus homens com o olhar e confirmou que eles se encontravam nos seus postos, Condor 1 na ponta mais afastada da plataforma nove, Condor 2 na extremidade mais próxima, Condor 3 numa cabina com visão geral sobre a gare. Voltou a atenção para a multidão de passageiros recém-chegados e procurou um rosto familiar em cada uma das pessoas. Nada descortinou que lhe chamasse a atenção.
Impaciente, aproximou o walkie-talkie da boca e carregou no primeiro botão.
"Águia para Condor 1", chamou. "Viste alguém?"
"Negativo, Águia. Mas tenho-os neste momento de costas, pelo que é difícil ver a cara de quem quer que seja. Estão todos a dirigir-se para Condor 2."
Segundo botão.
"Águia para Condor 2. Alguma novidade?"
O segundo homem levou alguns segundos a responder. "Condor 2
para Águia", foi a resposta. "Estou neste momento a proceder a verificação. Stand by."
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Quase automaticamente, Balam desviou o olhar para o seu segundo operacional. O homem encontrava-se de facto numa posição frontal aos passageiros que acabavam de desembarcar e estudava todos os rostos com muita atenção, comparando-os discretamente com fotografias que escondia numa mão.
Apesar de o chefe de segurança estar à porta do átrio, e portanto mais afastado, também ele se concentrou nos recém-chegados e procurou identificar os alvos que todos procuravam.
O walkie-talkie ganhou vida.
"Condor 2 para Águia", disse uma voz. "Negativo. Não identifiquei ninguém."
Balam premiu o terceiro botão.