Raquel lera a sua expressão. Fechando o semblante, o português decidiu guardar o problema da mãe num canto da mente e dedicar-se à questão mais imediata. Se queria ajudar a mãe, primeiro tinha de se desenvencilhar da embrulhada em que se metera.
Procurou um motor de busca e digitou o nome do Tribunal Penal Internacional. Apareceram-lhe várias opções, incluindo a página oficial da instituição. Acedeu ao site e tentou localizar o processo relacionado com a crise internacional. Uma página materializou-se no ecrã a indicar que a sessão preliminar estava mareada para as quinze horas desse mesmo dia em Florença, no Salone dei Cinquecento do 391
Palazzo Vecchio. Era tudo o que precisava de saber para agir.
Com um movimento brusco, desligou o portátil e, percebendo que teria de precipitar os acontecimentos para se livrar o mais depressa possível do colete-de-forças que lhe tolhia a liberdade de acção, encarou a sua companheira de viagem.
"Tenho um plano", disse. "Ouve-me com atenção..."
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LIX
O rumorejar baixo da multidão expectante foi subitamente interrompido no momento em que uma porta lateral se abriu e um funcionário judicial em pose formal emergiu dela. Muito hirto, o funcionário percorreu o longo tapete vermelho assente no piso do enorme salão e subiu à plataforma, detendo-se em pose solene para se dirigir aos presentes.
"Todos de pé!", ordenou, a voz a ecoar nas paredes. "O
meritíssimo juiz Axel Seth vai entrar para presidir à sessão."
No instante em que o funcionário se calou e as cadeiras se arrastaram numa cacofonia de movimentos para a multidão se pôr de pé, um homem alto e magro, de toga negra até aos pés, entrou no salão em passo lento, quase marcial, e subiu com pompa ao ponto mais alto da plataforma, dominada pela estátua de mármore de Carrara do papa Leão X a abençoar os fiéis com a mão direita. No centro da plataforma tinham sido colocados uma mesa e um cadeirão e foi ali que a figura de toga se instalou. O juiz Seth era uma celebridade mundial por via das suas responsabilidades à frente da Comissão Europeia, pelo que a sua entrada foi assinalada por uma tempestade de flashes fotográficos que se prolongou por um minuto e só foi interrompida quando o funcionário judicial fez sinal aos carabinieri e estes afastaram os fotógrafos.
Um silêncio repentino abateu-se sobre o Salone dei Cinquecento, a grande sala no Palazzo Vecchio onde funciona a Câmara Municipal de Florença. Com perfeito domínio das artes da gestão dramática do tempo, o juiz Seth permaneceu mudo durante alguns segundos, deixando o olhar severo derramar-se pelos frescos de Vasari, que decoravam as paredes 393
altas para ilustrar os triunfos de Florença sobre Pisa Siena, e pelas várias estátuas brancas alinhadas nas alas, incluindo a estátua do Génio da Vitória, de Miguel Ângelo. O Salone dei Cinquecento era a maior sala de Itália usada pelos poderes civis e tinha sido construído por ordem do próprio Girolamo Savonarola.
O juiz Seth pegou num pequeno martelo e, com um gesto protocolar, bateu com ele na secretária.
"Minhas senhoras e meus senhores", exclamou com ênfase, as palavras protocolares carregadas de um forte sotaque francês. "Declaro aberta esta sessão preliminar do Tribunal Penal Internacional convocada para formular as acusações relativas aos crimes contra a humanidade cometidos na crise financeira e económica internacional!"
Uma salva de palmas, polida e ordeira, percorreu o salão do Palazzo Vecchio. O juiz pousou o martelo e após pigarrear, preparando-se para as palavras introdutórias, apontou para a principal estátua que decorava o salão.
"Parece-me apropriado que nos reunamos em Florença, a cidade onde nasceu a banca moderna, e estejamos neste lugar carregado de história, sob o olhar vigilante da estátua do Génio da Vitória, do grande Miguel Ângelo, uma vez que é justamente com história e vitória que nesta sessão vamos lidar", proclamou. "A história da justiça e a vitória dos oprimidos. Porque, meus caros, vamos sobretudo fazer justiça."