Varreu o salão com um olhar dominador. "O mundo, ninguém o ignora, mergulhou numa crise profunda, uma crise tão grande que só tem comparação com a Grande Depressão dos anos 30 e que, por isso mesmo, já é conhecida por Segunda Grande Depressão. Esta crise, minhas senhoras e meus senhores, tem autores e responsáveis, pessoas que pelos seus actos e omissões nos trouxeram até este ponto. Precisamos de os identificar, de os processar judicialmente e de os sentar em tribunal para responderem pelos seus crimes. O Tribunal Penal Internacional foi criado justamente para julgar crimes contra a humanidade. Que ninguém tenha dúvidas, pois é de crimes contra a humanidade que estamos a falar 394
quando nos referimos às acções que conduziram a esta crise violentíssima! A culpa, garanto, não morrerá solteira!"
Uma salva de palmas espontânea ergueu-se da multidão que se acotovelava no Salone dei Cinquecento. Não havia uma vítima da crise no planeta que não ansiasse por justiça e pela punição daqueles que haviam arrastado o mundo para a situação que nesse momento se vivia. A ovação ao juiz Seth cristalizava o sentimento de revolta e a sede de justiça.
Como um actor a dominar o palco, o juiz levantou a mão e pediu silêncio. A ovação morreu.
"Nesta sessão preliminar serão identificados suspeitos que irão a julgamento em momento oportuno." Indicou uma mulher de meia-idade, magra e de olhar grave, sentada numa secretária diante do público e rodeada por uma equipa. "A procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional, professora Agnès Chalnot, reuniu a sua equipa e vai apresentar a lista de suspeitos que se sentarão no banco dos réus para responder por estes crimes. Ela passou os últimos tempos a coligir dados e a identificar responsáveis, todos eles inocentes até que este tribunal, após devido julgamento, decida em contrário. Caberá agora à procuradora-chefe e à sua equipa a tarefa de formular a acusação." Voltou a levantar a mão na direcção do causídico. "Professora Chalnot, faça o favor."
A procuradora-chefe estava sentada na mesa da acusação, rodeada da sua equipa. Ergueu-se no seu lugar, exibindo uni vestido negro até aos pés, e encarou o juiz.
"Meritíssimo, agradeço a confiança que foi depositada em mim e na minha equipa", começou por dizer. "Como sabe, a minha responsabilidade agora é indiciar suspeitos para que sejam chamados a julgamento neste tribunal. Se não vir inconveniente, entregarei ao meu colega, o procurador Carlo del Ponte, a apresentação da lista de nomes que apurou durante a investigação que até recentemente levou a cabo nos Estados Unidos."
O juiz acedeu com um leve movimento da cabeça. "Com certeza.
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Tem então a palavra o doutor Carlo dei Ponte."
Vendo-lhe passada a responsabilidade de formular a acusação, o procurador do Tribunal Penal Internacional, um homem de rosto ossudo e sobrancelhas densas, ergueu-se devagar do seu lugar, abotoou o casaco e, de papéis na mão, dirigiu-se ao ponto central da plataforma montada no salão.
"Excelentíssimo e meritíssimo juiz, caros colegas, minhas senhoras e meus senhores", disse, recorrendo à habitual formulação no início das intervenções em processos do género. "Todos sabemos que esta crise começou nos Estados Unidos e foi guiada por uma política irresponsável de desregulação dos mercados financeiros. O resultado de tudo isso foi uma recessão global que se transformou numa grande depressão e que custou o emprego a mais de trinta milhões de pessoas, e ainda cortes salariais e subida de impostos para outras centenas de milhões." Fez um gesto a indicar a sua mesa. "Eu e a minha equipa dirigimos por isso os nossos esforços no sentido de identificar os responsáveis por esse acto hediondo e as motivações que conduziram a ele. Irei apresentar os suspeitos e as provas que os envolvem neste crime cometido contra a humanidade."
O procurador fez um gesto imperial na direcção do funcionário judicial que havia anunciado a entrada do juiz no salão.
"Giuseppe, a tela."
O funcionário pegou num controlo remoto e carregou num botão.
Escutou-se um zumbido eléctrico e uma tela branca começou a descer de uma parede lateral, tapando o Fresco de Vasari a ilustrar a vitória sobre Pisa.
"Pronto, dottore."
O causídico do Tribunal Penal Internacional fez um sinal com a cabeça para um dos seus colaboradores e, de imediato, a fotografia de um homem de meia-idade sorridente, de grandes óculos e testa redonda, encheu a tela gigante do salão.
"Primeiro suspeito de crimes contra a humanidade que conduziram à Segunda Grande Depressão", anunciou, projectando a voz com 396