Não viu qualquer saída e, com o som dos passos dos desconhecidos cada vez mais próximo, percebeu que ia ser apanhado, era uma questão de segundos. Que fazer? Precisava de ajuda e foi nesse momento que pensou em Raquel. Onde diabo se havia ela metido? A espanhola era polícia, não era? Então o que esperava para intervir? Ah, aquilo parecia típico da profissão. A polícia nunca estava onde mais era precisa! A agente da Interpol misturara-se com as pessoas que enchiam o salão para acompanhar a sessão preliminar do processo do Tribunal Penal Internacional e nunca mais lhe pusera Os olhos em cima. Será que ela se tinha apercebido da chegada dos suspeitos? A dúvida instalou-se na mente de Tomás enquanto aguardava o desfecho inevitável naquela antecâmara perdida algures no interior do Palazzo Vecchio. Será que os suspeitos que estavam à beira de o capturar já haviam deitado a mão à agente da Interpol? A possibilidade deixou-o inquieto. Seria por isso que Raquel não dava sinais de vida? Teria sido apanhada? E se...
"Aqui!"
Sentiu uma mão vinda do nada agarrá-lo e puxá-lo para um buraco que aparecera no lugar do segundo quadro à direita. O
quadro abriu-se como se fosse uma porta e deu por ele num espaço estreito e sombrio. Sem que tivesse tempo para estudar a abertura para onde fora arrastado, viu o quadro fechar a passagem e com ele levar a luz. Ficou às escuras num lugar estranho, com a impressão de ter sido transportado para uma qualquer quarta dimensão, um buraco perdido entre realidades alternativas.
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"Que é isto?", assustou-se ele, atarantado com a forma como fora puxado para ali e com a irrealidade que impregnava o local.
"Quem está aqui?"
"Chiu!", foi a resposta sussurrada da treva por uma voz feminina.
"Cala-te!"
Era Raquel.
"Raquel, és tu?"
"Cala-te, já te disse!"
Obedeceu e o silêncio impôs-se naquele espaço fechado dentro da parede. Ouviram passos ecoar no outro lado da parede e vozes a disparar em várias direcções. Suspendendo a respiração, perceberam ambos que se tratava dos perseguidores que tinham chegado à antecâmara dos quadros mitológicos e se mostravam desconcertados com a volatilização da sua presa. Ao fim de alguns instantes de aparente desorientação, os ruídos desvaneceram-se e, aliviados, os dois fugitivos recomeçaram a respirar.
"O que é isto?", soprou Tomás, mal se atrevendo a usar as cordas vocais. "Onde estamos nós?"
"Numa passagem secreta", respondeu ela. "Anda. Tem cuidado com os degraus..."
Uma corrente de ar soprou-lhe no rosto, indício seguro de que havia por ali uma qualquer ligação com o exterior, e sentiu a mão de Raquel agarrá-lo pelo braço e puxá-lo para a direita. Receando o que a escuridão ocultava, explorou o chão com o pé até o sentir a embater em algo; tratava-se do primeiro degrau para cima.
Tacteando as paredes e sondando o piso, ambos subiram quatro degraus e deram com uma porta invisível a travar-lhes a progressão.
"Uma passagem secreta, hem?", sorriu Tomás. "Onde raio descobriste isto?"
"Informei-me, ora essa!", retorquiu a espanhola com uma risadinha nervosa. "Parece que esta passagem oculta foi construída 424
na Idade Média por um dos Mediei para se esconder no palácio." Deu uma nova risadinha. "Excelente ideia, hem? Dá-nos cá um jeitão..."
"Pois dá", concordou ele. "Só faltavam uns archotes para iluminar o caminho."
Franquearam a porta e acederam a uma câmara apertada em formato cúbico; o chão desenhava um xadrez de mármores gastos, via-se branco de Carrara, vermelho de Siena e verde de Florença. O
compartimento secreto era iluminado por uma pequena janela rústica, sem vidros e enquadrada por uma grade de ferro medieval, com vista para os telhados da cidade e por onde brotava a luz solar.
A câmara oculta estava rodeada de portas altas de madeira, três em cada parede, doze ao todo. Abriu uma dessas portas e encontrou objectos de cobre e jarros de vidro alinhados em prateleiras.
"Uma câmara de alquimia."
Ao inspeccionar a terceira porta deparou-se com uma corda grossa, daquelas usadas no mar. Tomás pegou nela e testou a sua solidez. Satisfeito com a resposta da corda, aproximou-se da janela e, inclinando-se, espreitou lá para baixo; eram dois andares até à rua. Sem hesitar, atou a corda à grade de ferro que enquadrava a janela.
"Que estás a fazer?", questionou-o Raquel, alarmada com o que via.
"Eres loco?"
O português testou a solidez do nó com dois puxões fortes.
Constatando que a corda se encontrava bem atada, atirou-a para a rua e virou-se para a sua companheira.