O italiano afastou-se, atirando olhares amedrontados à mesa dos clientes ibéricos, talvez a questionar-se quanto à sensatez de os seus antepassados terem ido à Ibéria tentar civilizar loucos daquele calibre.

Distraída momentaneamente na conversa com o empregado, a espanhola não observou a transformação que de repente se operou no olhar de Tomás, fixo naquele satanás mais inscrito no criptograma.

O historiador pôs-se a rabiscar letras no bloco de notas, mudando sucessivamente as suas posições até chegar a uma formulação que o satisfez.

"Já sei!", exclamou ele de súbito num tom triunfal. "Já sei!"

"O quê? Já sabes o quê?"

429

"Já sei porque está esta palavra em minúsculas! É um anagrama!"

O olhar dela bailou para cima e para baixo, entre o rosto do seu interlocutor e a charada no bloco de notas. "Um anagrama? Que queres dizer com isso?"

Tomás apontou para o satan+ rabiscado no papel.

"O Filipe pôs o anagrama em minúsculas para assinalar que a sua decifração obedecia a regras diferentes do resto do criptograma, escrito em maiúsculas. Sendo um anagrama, temos de rearranjar a palavra satan de modo a dar uma palavra diferente com as mesmas letras. Entendes? É um anagrama! Uma vez fizemos este truque no liceu."

"Ai sim?", admirou-se ela. "E existe alguma palavra que nasça do rearranjo das letras de satan?"

O português indicou as letras que rabiscara instantes antes no bloco de notas.

"Santa", disse. "A palavra santa escreve-se com as mesmas letras de satan, mas arranjadas numa ordem diferente. Santa é um anagrama de satan. Basta tirar o n do fim e metê-lo no meio da palavra."

"Santa?", interrogou-se a agente da Interpol, voltando a concentrar-se na frase completa do criptograma. "Vai a santa mais e procura sobre o túmulo de santa?"

"O anagrama só se aplica no satan escrito em minúsculas, pelo que o segundo satan se mantém satan."

"Vai a santa mais e procura sobre o túmulo de Satanás", corrigiu Raquel.

"Que raio quer isso dizer? O que é santa mais?" O historiador riu-se.

"Não é mais", observou, apontando para o "+". "Não se trata do sinal de adição, mas de uma cruz, percebes? Ou seja, a mensagem diz: Vai a santa cruz."

Pegou na caneta e reescreveu o criptograma, desta feita com o anagrama desvendado.

G O T O s a n t a c r o s s & S E A R C H O V E R S A T A N ' S T O M B

430

"Hmm...", murmurou Raquel, mordendo o lábio inferior. "Começa a fazer sentido."

Desta feita foi Tomás a levantar o braço e a chamar o empregado. O homem aproximou-se num passo um tudo-nada receoso, na dúvida sobre o que o esperava daqueles clientes.

"Signore?"

"Oiça, existe aqui algum sítio chamado santa cruz?"

Ao ouvir o nome, o olhar do italiano iluminou-se.

"Ah, a basílica! Sim, sim, é lá que vou rezar todos os domingos!", revelou. "La basilica di Santa Croce! É famosa e belíssima!" Deu um beijo ruidoso na ponta dos dedos. "Madonna, che bella! Uma obra de arte sem igual!"

Com o olhar de quem começava a relacionar as coisas, o historiador fez um gesto para a rua.

"Essa basílica.., não é aquela aqui no centro da cidade?" O

empregado balançou afirmativamente a cabeça.

"Si, signore."

"É o lugar onde estão enterrados os grandes de Itália, não é?

Miguel Ângelo, Galileu..."

O italiano esboçou um gesto largo pelo ar.

"Davvero, signore! A basílica é o tempio dell'ltale glorie! É lá que os grandes dos grandes dormem o sono eterno! Os gloriosos filhos de Florença e de Itália!"

Num movimento que parecia sincronizado, Tomás e Raquel cruzaram um olhar carregado de subentendidos. Enfim decifrado, o criptograma de Filipe tornara-se mesmo um mapa.

431

LXV

A fachada de mármore níveo da basílica, com três grandes portas de madeira maciça e coberta de relevos rectangulares com uma grande estrela de David no topo, parecia olhá-los de esguelha, quase com sobranceria. Atravessaram a Piazza delia Croce, tranquila ao fim da tarde, e subiram a escadaria exterior. Quando iam a entrar pela porta central, a maior, cruzaram-se com um monge franciscano.

"Desculpe", interpelou-o Tomás, "será que me pode dar uma informação profissional?"

"Com certeza", retorquiu o monge, solícito. "O senhor é da equipa de restauro que vem de Pisa?" Virou-se para o interior da basílica. "Os frescos de Giotto encontram-se ali ao fundo, na capela."

"Não, não é isso", atrapalhou-se Tomás. "Somos... enfim, turistas. Disseram-nos que havia aqui alguns túmulos importantes, designadamente de Miguel Ângelo e Caldeu, de modo que..."

O olhar do monge iluminou-se.

"Ah, os túmulos!", exclamou, percebendo o seu equívoco. "Peço desculpa, confundi-vos com uma equipa que... ah, não interessa."

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