"Vocês na Interpol fazem testes de destreza física, não fazem?", perguntou-lhe em tom de desafio. "Então estou certo de que serás capaz de descer por aqui."
Sem esperar que ela respondesse, empoleirou-se na janela e, agarrando a corda com firmeza, passou para o lado exterior e começou a deslizar pelas muralhas do Palazzo Vecchio. Olhou para cima e viu a 425
espanhola imitá-lo. A descida foi relativamente rápida, as mãos agarradas à corda e as pernas a calcorrearem a parede como se caminhasse para trás, até que sentiu o chão próximo e, largando a corda, saltou para a rua.
A sua companheira fez o mesmo alguns segundos mais tarde, juntando-se a ele na via della Ninna.
"Ufa!", suspirou Raquel com alívio, inebriada pelo ar fresco.
"Desta já nos safámos!"
426
LXIV
A trattoria diante da estação de Santa Maria Novella estava a tornar-se o poiso de Tomás e Raquel. Chegaram a considerar a possibilidade de se instalarem num hotel ou numa pousada, mas a necessidade de mostrarem documentos dissuadiu-os; não tinham dúvidas de que os homens que os caçavam percorreriam todos os lugares da cidade onde se pudesse passar a noite.
Quando chegaram ao restaurante, vindos do Palazzo Vecchio, instalaram-se na mesinha que haviam ocupado nessa manhã e mandaram vir comida. Quando o empregado do bigode revirado se afastou com os pedidos, o historiador abriu o bloco de notas sobre a mesa e ambos estudaram o criptograma que teriam de quebrar antes de a sessão preliminar ser retomada na manhã seguinte.
G O T O s a t a n + & S E A R C H O V E R S A T A N ' S T O M B .
"Vai para satanás mais e procura sobre o túmulo de Satanás", leu Raquel literalmente. Levantou os olhos para o português. "Olha lá, não tinhas já decifrado esta algaraviada em Madrid? Na altura fiquei com essa impressão..."
"O que eu percebi no apartamento da tua amiga é que o Filipe tinha escondido o DVD aqui em Florença", esclareceu Tomás. "Foi a notícia dada na televisão sobre a sessão preliminar do Tribunal Penal Internacional, mais o facto de o Filipe me ter dito que viera de Itália, 427
que me puseram nesta pista." Indicou a charada. "Agora o criptograma vai dar-nos a localização exacta do esconderijo."
A agente da Interpol examinou mais uma vez a frase, desta feita com tanta intensidade que dava a impressão que acreditava que os olhos bastavam para arrancar o segredo escondido nas estranhas palavras.
"Isto não se percebe nada!", acabou por desabafar, frustrada.
"Que chinesice!"
Também com a atenção centrada na charada, Tomás coçou distraidamente o queixo.
"Já reparaste que há uma coisa bizarra neste criptograma?"
"Uma coisa bizarra?", questionou Raquel, a voz carregada de ironia. "Como! Tudo é bizarro. Tudo."
"Sim, mas... não notaste que, no meio desta frase toda em maiúsculas, existe uma palavra em minúsculas?" Apontou para a palavra em questão. "Este primeiro satan, precedido por um sinal de adição. Está em minúsculas, já viste?"
O olhar da espanhola fixou-se na palavra e no símbolo da adição.
"Sim, e depois? O que tem isso de especial?"
"Por que raio iria o Filipe escrever esta palavra com um formato diferente das restantes? Porquê esta palavra em minúsculas e as restantes em maiúsculas?" Apontou para o "+" colado à palavra. "E, já agora, porquê este símbolo de adição? Ele quer somar o satan a quê?"
Raquel releu a frase em voz baixa, como se falasse para ela própria.
"Vai para satanás mais e..." Calou-se por um instante e fitou Tomás. "Vai para satanás mais!", repetiu, desta vez com intensidade.
"Temos de ir a satanás mais!"
O historiador soltou uma gargalhada.
"Pois, mas que raio de lugar é esse? Onde é satanás mais? No Inferno?"
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A agente da Interpol ignorou a graçola e, contorcendo-se no lugar, levantou o braço e chamou o empregado italiano com um gesto frenético.
"Desculpe, pode dar-me uma informação?"
O empregado abeirou-se dela, solícito.
"Si, signora. Cosa vuole sapere?"
"Existe aqui em Florença algum sítio chamado... uh... satanás mais?"
O italiano arregalou os olhos, pensando que ouvira mal. "Satanás quê?"
"Satanás mais."
O homem recuou um passo, como se receasse que a cliente se metamorfoseasse no Demónio e lhe lançasse um ataque de fogo com enxofre.
"Scusi, signora, mas eu, de Satanás, felizmente sei pouco. Sabe, sou católico praticante e... enfim... essas práticas do Demo..."
Raquel percebeu que assim não ia lá. Fez um gesto com a mão a mandar o empregado embora.
"Pronto, está bem, está bem!", disse ela com súbita impaciência.
"Já percebi..."