As duas revelações abalaram Magus. O mestre-de-cerimónias recuou um passo, como se o impacto do que via e ouvia o tivesse desequilibrado.

"O que... quem... como é isto possível?", perguntou, interrogando-se a si mesmo e às pessoas que o rodeavam. "Que se 462

passa aqui? Como é que vocês apareceram? Quem vos trouxe cá?"

Um curto silêncio abateu-se sobre a sala.

"Receio que seja eu o responsável por esta situação", confessou Tomás, quebrando enfim o mutismo a que se remetera desde que os carabinieri haviam entrado para salvar os procuradores do Tribunal Penal Internacional. "Sabe, fiquei desconfiado quando recebi um e-mail do meu amigo Filipe Madureira a anunciar-me que tinha sobrevivido ao tiroteio em Lisboa e a aconselhar-me a vir aos Uffizi falar com o tal Mefistófeles. Como decerto não ignora, Mefistófeles é um dos nomes do Diabo e reparei que havia uni comportamento de seita por parte daqueles que nos perseguiam. Além do mais, o Filipe já me tinha dito que viesse vir ter com a Raquel. Por que raio iria agora dizer-me que fosse ter com outra pessoa? Fiz, por isso, um teste. No e-mail de resposta ao Filipe, observei que o criptograma que ele me deixou me fez lembrar os nossos tempos no Liceu Afonso de Albuquerque, em Castelo Branco. No e-mail seguinte, o Filipe confirmou que esses tempos no Afonso de Albuquerque foram realmente magníficos. Foi assim que percebi que nos estava a ser estendida uma armadilha."

Magus esboçou um gesto de incompreensão.

"Porquê? O que tem isso de extraordinário?"

"É que o Afonso de Albuquerque é o liceu da Guarda", sublinhou o historiador. "O liceu de Castelo Branco, onde eu e o Filipe andámos, chama-se Nuno Álvares. Se o interlocutor destes e-mails fosse mesmo o Filipe, ele ter-me-ia decerto questionado sobre a troca de nomes dos liceus. Dada a rivalidade entre Castelo Branco e a Guarda, nenhum aluno do liceu de Castelo Branco deixaria passar em claro um equívoco desses. Mas o meu interlocutor deixou. Logo, a pessoa que me escrevia não podia ser o meu amigo Filipe."

"Muito esperto, sim senhor", registou Magus com desdém. Fez um gesto a indicar os carabinieri. "Mas isso não explica a presença ilegal 463

destes senhores nesta cerimónia privada."

Emergindo da massa de acólitos, Raquel destapou a cabeça e juntou-se ao português.

"A presença dos carabinieri, apraz-me dizê-lo, é bem legal", ripostou Tomás. "Sabe, a minha amiga da Interpol, Raquel de la Concha, levou-me a casa da sua superiora hierárquica em Madrid, dizendo que o apartamento estava vazio porque a proprietária se encontrava a fazer uni trabalho em Haia. Como a sede do Tribunal Penal Internacional é justamente em Haia, não foi difícil deduzir que o trabalho estava a decorrer nessa instituição. Quando chegámos aqui a Florença, e já com tudo claro na minha mente, expus a Raquel o meu plano." Indicou a polícia à paisana. "Ela contactou a sua chefe e amiga Marilú..."

"Sou eu", sorriu Maria Luísa Navarro, a agente à paisana.

"... e explicou-lhe a situação que estávamos a viver e o plano que apresentei. A señora Marilú concordou e contactou de imediato a procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional, a professora Agnès Chalnot, que se interessou pelo caso quando lhe foi explicado que eu estava na posse de informações que poderiam conduzir ao DVD do Filipe.

É que, até começar a ser perseguido, o Filipe trabalhava para a equipa que a professora Chalnot criara no TPI para investigar este processo. Foi assim que apareci esta tarde no Palazzo Vecchio como membro dessa equipa. Só faltava, claro, descobrir o paradeiro do DVD que o Filipe tinha escondido e que continha as provas incriminatórias. Como o e-mail suspeito dizia que eu e Raquel nos tínhamos de apresentar nos Uffizi à meia-noite e pedir para falar com Mefistófeles, sugeri aos procuradores que viessem no nosso lugar para testemunhar os eventos, devidamente protegidos pelos carabinieri, claro. Arranjámos maneira de nos infiltrarmos mais cedo na congregação e... aqui estamos."

Fez-se um silêncio pesado na sala, os olhos de Magus e da congregação presos no DVD, a atenção de Tomás, das duas agentes da Interpol, dos procuradores e dos carabinieri fixada na reacção dos 464

elementos da seita. Foi a procuradora-geral do TPI quem quebrou o súbito mutismo.

"Este senhor ameaçou a minha vida", disse ela, apontando para Balam. "Além disso, confessou há pouco os homicídios de Éric Garnier e Hervé Chopin em Nice. Parece-me que deve ser o primeiro a ouvir a ordem de prisão."

Marilú pegou no capuz do acólito e arrancou-o, destapando-lhe a face.

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