"O nome", disse. "Desde o princípio que o nome do juiz nomeado para este processo me chamou a atenção, em particular quando soube que foi ele que o escolheu. Retirou o apelido dos pais e pôs o nome Seth. Achei estranho e pensei cá para os meus botões: que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?"

"Ora essa!", protestou Axel Seth. "Já só faltava acusarem-me também por ter mudado de nome. O senhor não sabe que Seth é um nome bíblico? Seth era o terceiro filho de Adão e Eva e a palavra significa semente em hebraico. Como vêem, não há aqui nada de mal. Porque implicam agora com o meu nome?"

"É verdade que Seth é um nome bíblico", reconheceu o historiador. "Mas Seth é um personagem totalmente secundário no 468

Génesis e praticamente irrelevante na narrativa das Escrituras. Porque diabo iria uma pessoa dar-se ao trabalho de mudar de apelido para adoptar um nome bíblico obscuro? Se mudasse o nome para Abraão ou Noé ou Moisés ou Jesus, tudo bem. Mas.... Seth? Porquê Seth? O

que tinha Seth assim de especial? Lendo a Bíblia, percebemos que a relevância dessa personagem é praticamente nula. Foi isso que desde o início me fez espécie. Porque raio escolheu o juiz o nome Seth?"

"E então?", quis saber a procuradora-geral, impacientando-se. "A que conclusão chegou?"

"Concluí que o Seth adoptado pelo juiz não podia ser o Seth do Génesis. Acontece que a mitologia egípcia tem um deus muito importante com o mesmo nome. Seth era a divindade egípcia da violência, da guerra e do caos, a encarnação do espírito do mal e o precursor do diabo. Seth remete para sethanismo, ou... satanismo."

Os procuradores arregalaram os olhos.

"Perdão?"

"O nome egípcio Seth está na origem do nome Satã, ou Satanás." Tirou do bolso o bloco de notas com o criptograma decifrado e dirigiu-se ao presidente da Comissão Europeia. "O senhor juiz lembra-se de, no final da sessão preliminar no Palazzo Vecchio, eu lhe ter mostrado nesta folha a mensagem de Filipe?"

Os olhos dos que se encontravam mais perto desviaram-se para a frase garatujada numa das páginas do bloco.

G O T O s a n t a c r o s s & S E A R C H O V E R S A T A N ' S T O M B

"Sim", assentiu o juiz Seth. "E então?"

"Quando na basílica de Santa Croce percebi que esta mensagem apontava para o túmulo de Maquiavel, interroguei-me sobre os motivos que levaram Filipe a referir-se duas vezes a Satanás e a escrever Satan's tomb e não Devilś tomb, como seria mais natural. No fim de contas, 469

Maquiavel era conhecido por Il Diavolo, que se traduz por Diabo, Devil em inglês. Por que raio teria Filipe escolhido a palavra inglesa Satan e não a palavra Devil, como seria mais natural? Percebi então que ele estava a fazer uma ligação subtil entre Satan e Seth. A verdadeira chave do criptograma, para além de indicar o caminho para o DVD

comprometedor, era nomear Seth como o seu perseguidor."

"Isso é tudo especulação!"

"O que explicava outro mistério", acrescentou o historiador, ignorando o seu inimigo. "Quando começou a ser perseguido, Filipe deveria ter procurado a ajuda da procuradora-geral Agnès Chalnot, no fim de contas a pessoa que o tinha contratado como investigador neste processo e sua natural protectora. Porque não o fez? O problema constituiu para mim um grande enigma, que só resolvi quando me apercebi de que o Satanás a que o criptograma se referia era na realidade o juiz Seth. Sabem, sempre estranhei a nomeação do presidente da Comissão Europeia para juiz deste caso. Cheirou-me a arranjinho.

uma vez que Axel Seth mexera cordelinhos para presidir a este processo do Tribunal Penal Internacional de crimes contra a humanidade no escândalo da crise mundial, evidentemente de modo a melhor controlar o que nele era revelado, Filipe temera que a procuradora-geral do mesmo processo estivesse em conluio com o juiz.

Filipe não tinha a certeza de nada, claro, mas não podia correr riscos.

Daí que tenha evitado pedir ajuda à professora Agnès Chalnot, como era natural que tivesse feito."

A procuradora-geral baixou a cabeça.

"Pauvre Filipe!", murmurou, consternada. "Imagino o que não deve ter passado..."

"O senhor tem muita imaginação, sim senhor", exclamou Axel Seth com sarcasmo. "Mas tudo isso não passa de conversa da treta, como bem sabe. Se não provar nada, e não provará, as suas palavras resumem-se a conjecturas doentias de uma mente delirante. Não terei 470

dificuldade em arranjar quem o interne por patologia psicótica ou por qualquer outra coisa do género."

"Está a ameaçar-me?"

"Não, estou simplesmente a fazer uma previsão do que lhe vai acontecer."

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