As palavras do juiz, e na verdade toda aquela situação, deixaram os dois procuradores do Tribunal Penal Internacional muito pouco à vontade. Agnès Chalnot abeirou-se de Tomás.
"Desculpe, professor Noronha, mas deverei depreender que, quando veio falar comigo, já sabia que o juiz Seth era o... enfim, o principal suspeito?"
"Desconfiava. Só obtive a certeza final quando percebi que o criptograma se referia ao túmulo de Maquiavel." "Se desconfiava, porque não me disse nada?"
"Ninguém lança suspeitas sobre o presidente da Comissão Europeia, para mais juiz do processo no qual estamos envolvidos, sem ter certezas, não acha?"
A procuradora-geral não desarmou.
"Mesmo assim, poderia ter-me dito alguma coisa..."
Tomás fitou-a com intensidade, como a indicar que, se ela mentisse na resposta à sua pergunta, tal não passaria despercebido.
"Se lhe tivesse dito que suspeitava que a pessoa por detrás de tudo isto era o presidente da Comissão Europeia e UIZ deste
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processo do TPI, teria aderido ao meu plano?"
A pergunta pareceu desarmar Agnès Chalnot.
"Zut, alors!", exclamou ela, sem saber como responder. "Tenho de admitir que... enfim, não seria uma decisão fácil. Ninguém se atira a uma pessoa como o juiz Seth de ânimo leve, não é verdade?" Hesitou.
"Mesmo que tivesse decidido avançar, reconheço que teria dificuldade em convencer o juiz Joossens a passar o mandado de captura.
Provavelmente ele não o passaria."
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A resposta pareceu satisfazer o historiador.
"Percebe agora porque optei pelo silêncio?", perguntou. Fez um gesto a indicar o presidente da Comissão Europeia. "Mesmo neste momento, e perante tudo o que se passou aqui, vocês hesitam em deter o juiz Seth. Se é assim em condições destas, imagine como seria se eu tivesse aberto o jogo todo..."
Axel Seth soltou Uma gargalhada sem humor.
"Eles hesitam porque sabem o que os espera se não conseguirem provar nada contra mim", sentenciou. "E a verdade, mon cher, é que vocês nada têm de concreto. Apenas umas especulações fantasiosas, nada que se sustente num processo judicial."
Tomás virou-se para o presidente da Comissão Europeia e lançou-lhe um olhar sibilino, carregado de subentendidos.
"O senhor está esquecido de uma coisa, não está?"
A pergunta deixou o juiz incomodado. Axel Seth mudou a perna em que se apoiava, incapaz de conter a ansiedade que até esse momento conseguira reprimir.
"Está a falar de quê?"
"Esqueceu-se que eu vim a Florença à procura de algo que o Filipe aqui escondeu?"
O presidente da Comissão Europeia não tinha esquecido. Tratava-se do ponto mais importante de todos, aquele que tudo provocara, e o assunto nem por um momento lhe saía da cabeça.
"O DVD", murmurou ele num tom neutro, esforçando-se por ocultar o tumulto que nesse instante lhe revoluteava no coração. "Onde está ele? Encontrou-o?"
Tomás meteu a mão no bolso da túnica e extraiu uni disco prateado, que exibiu provocatoriamente.
"Infelizmente para si", disse com um sorriso largo, o olhar insolente cravado no seu inimigo. "Está aqui."
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LXXI
O computador portátil que Marilú tinha trazido foi instalado no altar satânico, mesmo ao lado da cabeça de bode, e o DVD inserido no espaço próprio. O ecrã registou a presença do disco e fixou a primeira imagem, uma sala vista de cima com homens engravatados lá em baixo à volta de uma mesa cheia de papéis, e uma seta gráfica a indicar play.
"O que vamos agora ver é uma sequência de imagens captadas por dois técnicos franceses, Éric Garnier e Hervé Chopin, em várias salas da sede da Comissão Europeia em Bruxelas", esclareceu Tomás, dirigindo-se especificamente aos dois procuradores do Tribunal Penal Internacional.
"Como esta tarde expliquei na sessão preliminar do processo, estes técnicos foram contratados em segredo pelo anterior presidente da Comissão para detectar a fonte de fugas de informação. Foi-lhes dada autorização para interceptarem as comunicações internas e as comunicações para o exterior, incluindo e-mails e telefonemas. O que vamos ver são intercepções relevantes para o processo do TPI contra os responsáveis pela crise por crimes contra a humanidade."
Os olhos dos dois procuradores colaram-se à imagem paralisada no ecrã do portátil.
"Esta imagem", perguntou Agnès Chalnot, "diz respeito a essas intercepções?"
"Correcto", confirmou o historiador. "Segundo o dossiê que o Filipe me deu, corresponde a uma reunião entre o comissário europeu encarregado da arquitectura do euro e economistas a quem foi entregue a tarefa de analisarem as consequências da criação de uma moeda única."
Apontou para o comissário. "Reconhecem o comissário europeu?"