"Está? Comendador Pereira? Daqui Gonçalo da Cunha. Tirei um minutinho antes do conselho europeu, aqui em Bruxelas, para lhe dar uma palavrinha, meu caro. Como vai isso?" Fez uma pausa, a escutar o que dizia o seu interlocutor. "Pois muito bem, muito bem." Segunda pausa. "Ah é? Aquela auto-estrada que vos dei a construir lá na Beira Baixa vai bem? Olhe que vocês estão a arrecadar uma boa maquia dos cofres do estado, hem? Essa auto-estrada não vai ter tráfego nenhum, mandei-a fazer de propósito para vos ajudar..." Nova pausa. "Fique descansado, homem, eu trato disso. Como o tráfego será tão insignificante que não vos dará dinheiro, a gente mete no contrato que o estado paga para que vocês tenham lucro. Comigo, já sabe, a sua empresa nunca terá dificuldades." Fez uma pausa para escutar o seu interlocutor. "Qual terreno agrícola? O de Vila Nova de Mexilhões? Fale com o nosso autarca, ele é um bom tipo.

O gajo altera o plano director municipal e passa-lhe isso a terreno urbano, fique descansado. Terá é de desembolsar mais uns tustos, já sabe."

Afinou a voz. "Oiça, chegou-me agora às mãos um projectozinho que é bem capaz de render uns carcanhóis valentes, e é justamente por isso que lhe estou a ligar. Diga-me uma coisa, meu caro: o que percebe você de comboios de alta velocidade?" Outra pausa. "Pois, é uma coisa dessas.

Acontece que vamos avançar aqui com um projecto e... e quero que você faça parte do consórcio. É muita massa envolvida, meu caro amigo. Vai dar dinheiro para toda a gente." Nova pausa. "Não, é evidente que a alta velocidade não é rentável, meu caro comendador. Também estas auto-estradas não são rentáveis nem necessárias e isso não nos impediu de as fazer, pois não? Era preciso ajudar as construtoras amiguinhas e nós ajudámos, ou não ajudámos? Neste caso é o mesmo. A malta faz um contrato dos habituais, daqueles em que o estado paga para assegurar o lucro do consórcio encarregado do projecto. Será uma parceria público-

-privada segundo o esquema habitual, fique tranquilo." Ainda uma pausa.

"Isso, isso. Mas, oiça lá, quero um bom financiamento para o partido, 485

ouviu? Olhe que estou a dar-lhe muito dinheiro a ganhar." Mais outra pausa. "Está bem, depois falamos. Quando tivermos definido o itinerário que o TGV vai ter, dar-lhe-ei adiantadamente a informação para que possa comprar os terrenos a bom preço e ganhar uma bela maquia com as expropriações."

Respeitou uma nova pausa e, esboçando de repente uma careta, bateu com a palma da mão na testa. "Ah, pois, tem razão! Você já conhece bem esse esquema, quando foi do traçado das Scut, já nem me lembrava..." Afinou a voz. "Não se esqueça que esta história dos comboios vale milhares de milhões de eur... uh... quilómetros. Por isso, não aceito menos de umas dezenas de milhões de eur... quer dizer, de quilómetros para o partido, está a ver? Tenho eleições à porta e..." Pausa. "Está bem, está bem. Os homens da mala depois passam por aí para receber o dinheiro. A chatice é a comissão que eles levam, hem? Mas, enfim, tem de ser. É o preço para apagar o rasto dos... dos quilómetros." Suspirou. "Depois falamos melhor, meu caro comendador, ao telefone convém ser prudente, não é verdade? Além disso, vai agora começar o conselho europeu e não posso chegar atrasado, senão a gorda ainda me passa uma descasca em alemão." Riu-se.

"Cumprimentos à malta aí da sua construtora. Especialmente ao tesoureiro, ouviu?" Nova risada. "Bom rapaz, esse Teodoro! Uma maravilha a passar cheques, hem?" Ainda outra gargalhada. "Um abraço, um abraço..."

O chefe do governo português desligou o telemóvel e a imagem foi a negro, sinal de que a sequência de gravação estava concluída.

Depois de carregar no pause, Tomás voltou-se para os procuradores do Tribunal Penal Internacional. "São três conversas muitos instrutivas, não vos parece?"

Agnès Chalnot e Cano dei Ponte ainda estavam estarrecidos com o que haviam visto e ouvido.

"Muito", murmurou a procuradora-geral, o assombro a empalidecer-lhe a face. "Muito mesmo."

"Não é que não suspeitássemos que as grandes decisões se tomassem assim, mas uma coisa é imaginarmos e outra é vermos e 486

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