"Está enganada", corrigiu Tomás, interrompendo a procuradora do TPI. "Metade da dívida privada deve-se às famílias que compraram casa e não a conseguem pagar, não é verdade? Mas e a outra metade da dívida privada que deixou Portugal com a corda no pescoço? São dívidas criadas por estes esquemas. Os bancos estão à beira da falência porque emprestaram dinheiro para obras em terrenos que afinal não valem nada. Como os bancos se encontram aflitos, quem os veio salvar?"
A pergunta ficou por um momento a pairar no ar até que o olhar de Marilú se acendeu com a resposta.
"O estado."
"E com que dinheiro?"
A procuradora suspirou, vendo a evidência.
"O dinheiro dos contribuintes, claro."
O historiador sorriu.
"Está a ver como os dinheiros públicos foram arrastados para este esquema? Os governos estão a cortar salários e pensões e a aumentar os impostos também para arranjar dinheiro para meter nos bancos que emprestaram milhares de milhões de euros e ficaram nas mãos com terrenos que afinal não valem nada."
"Pois, estou a ver."
"Outro pormenor interessante desta última conversa registada no DVD é a referência aos homens da mala. Trata-se dos angariadores do 489
financiamento partidário, que cobram comissões de quarenta por cento. O dinheiro que eles angariam é depois despejado aqui e ali, de tal modo que nos cofres dos partidos acabam por só entrar quinze por cento."
"Mon Dieu!", exclamou a procuradora-geral, abanando a cabeça.
"Só negociatas!"
"É verdade. Mas a verdadeira negociata é a dos corruptores, claro. A conversa entre o primeiro-ministro e o dono da construtora é, a todos os títulos, ilustrativa. Graças ao dinheiro que dão aos partidos e aos decisores corrompidos, os grandes tubarões conseguem verdadeiros negócios mirabolantes. As PPP são exemplos de negociatas suspeitas, em que o risco foi transferido do privado para o contribuinte, o qual assegura ao privado rentabilidades de quinze por cento ao ano. Ou os governantes que decidiram isso são totalmente parvos, coisa de que tenho as maiores dúvidas, ou então fizeram-no porque havia interesses ocultos em jogo. Não há provas de nada, claro, mas não consigo imaginar outra explicação para decisões tão ruinosas. Reparem que, quando a legislação das PPP foi aprovada, seis deputados da comissão parlamentar de obras públicas eram administradores de empresas de construção envolvidas nestas parcerias..."
Agnès Chalnot sorriu.
"Deve ter sido coincidência..."
"Pois deve", devolveu Tomás. "A terceira coisa que estas conversas mostram é que os países do centro, como a França e a Alemanha, têm também uma importante fatia de responsabilidade na crise da dívida dos países da periferia. Quando a crise começou, os Alemães acusaram a periferia de gastar à tripa-forra, e tinham razão. O que eles não disseram é que eles próprios, Alemães e Franceses, encorajaram os periféricos a endividar-se para além do que podiam. A Alemanha e a França usaram a periferia para financiar indirectamente as suas 490
próprias empresas, pressionando os países periféricos, em particular a Grécia e Portugal, para avançarem com projectos ruinosos que evidentemente não conseguiriam pagar. Ou seja, toda a retórica moral que agora apresentam, retórica que é aliás correctíssima, está impregnada da mais pura das hipocrisias. Os governantes dos países periféricos europeus merecem sentar-se no banco dos réus no processo de crimes contra a humanidade por decisões danosas que tomaram e que conduziram a esta crise, mas os governantes dos países do centro também. É importante lembrar que Portugal, sendo o país mais antigo da Europa, faliu menos vezes que a Alemanha e a França, por exemplo. Portanto, a falência não é algo que esteja necessariamente nos genes portugueses, como andam a insinuar."
Os dois procuradores do Tribunal Penal Internacional cruzaram o olhar; ambos tinham plena consciência de que não os aguardava tarefa fácil. Como iriam eles sentar no banco dos réus, além dos sucessivos governantes da Grécia, de Portugal e de Espanha, os presidentes de França e os chanceleres da Alemanha?
"Tudo isto é muito interessante", disse Agnès Chalnot. "Mas, com o que temos, receio que o processo não tenha pernas para andar."
A conclusão surpreendeu o historiador português. "Não? Porquê?
"Porque não conhecemos a origem do dinheiro com que os países periféricos financiaram estes projectos", indicou ela. "No fim de contas, os financiamentos comunitários só cobrem uma parte das despesas, não é verdade? Sem termos uma coisa dessas apurada, não é possível processo nenhum..."
Tomás inclinou a cabeça.