"Acha que os dois técnicos franceses não gravaram nada sobre isso?", perguntou em tom de desafio. Desviou o olhar para o computador onde o DVD estava inserido. "Pois engana-se..."
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LXXIII
O ambiente na sala dos Uffizi tornara-se denso, quase como se um nevoeiro pairasse sobre todo o espaço. O dedo de Tomás aproximou-se do botão de play do computador portátil. Antes de carregar, porém, o historiador encarou a procuradora-geral do TPI.
"O próximo segmento gravado pelos dois franceses lida justamente com a questão de determinar a forma como os bancos dos países centrais financiavam o despesismo nos países periféricos", disse. "O que vamos ver a seguir é uma conversa telefónica entre um banqueiro alemão e um banqueiro americano. O alemão tinha tido uma reunião com o ministro espanhol das Obras Públicas e ficou sozinho no gabinete, sem saber que estava a ser gravado. O telefone fixo que ele utilizou também se encontrava sob escuta, o que nos permite ouvir o que o seu interlocutor dizia em Nova Iorque."
Carregou no play e a imagem recomeçou a rolar. Mostrava um homem gordo e engravatado sentado a uma mesa, a fazer uma chamada a partir de uni telefone fixo.
"Hallo, John? Aqui Mathias Glock, do Münchner Eurobank. Tudo bem?"
"Hi, Mattie! Como vai isso, old pai?"
"Wunderbar. Ouve, John, tive agora uma reunião com o ministro espanhol das Obras Públicas e ele pediu-me dez mil milhões de euros para financiar mais uma linha de alta velocidade. Será que me podes disponibilizar esse dinheiro?"
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"A que juro, Mattie?"
"O do costume, claro."
"O juro do costume é muito baixo, Mattie! Já te enviei cinco mil milhões para umas auto-estradas em Portugal, mais sete mil milhões para o governo grego distribuir subsídios às suas clientelas e agora queres outros dez mil milhões para os Espanhóis? Olha que já mandámos trinta mil milhões para financiar a construção civil em Espanha e outros quinze mil milhões para o imobiliário na Irlanda! Essa gente está a estourar dinheiro que se farta! Será que eles depois nos pagam?"
"Ach, John, que pergunta! Não vês que estamos todos no euro? Agora é tudo a mesma coisa, mein Freund! Emprestar a um espanhol ou a um português é o mesmo que a um alemão!"
"Tens a certeza? Olha que a dívida desse pessoal já começa a pesar..."
"Confiança total, John."
"Esses países não têm medo de ficar sobre endividados?"
"Qual quê! Olha, o governador do Banco de Portugal, por exemplo, já disse em público que, uma vez que o seu país está no euro, a questão do sobre endividamento não se coloca. E em privado encorajou os banqueiros portugueses a endividarem-se à vontade. De modo que só temos de aproveitar os juros baixos e usar o dinheiro. Emprestar aos países da zona euro, quaisquer que eles sejam, é absolutamente seguro! Se houver algum problema, as economias mais fortes servem de garantia implícita das dívidas das economias mais débeis."
O americano hesitou.
"Yeah, tens razão", acabou por dizer. "Okay buddy, manda-me então os papéis e eu trato disso. Vamos ganhar boa massa em comissões, hem?"
"Jawohl, John. Vou falar com os Espanhóis para que eles formalizem o pedido. É ainda possível que haja outra encomenda dos Portugueses. Parece que agora também querem construir um aeroporto."
"Wow, Mattie! A Europa parece um estaleiro! É só obras, é só obras! E
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nós a facturar!"
A imagem foi a negro e Tomás carregou no stop.