"Parece-me realmente um documento muito relevante para o processo do Tribunal Penal Internacional", considerou a procuradora-geral, Agnès Chalnot.
Sem mais comentários, Tomás avançou no DVD e localizou a imagem seguinte. A gravação mostrava uma outra sala, esta com sofás. Dois homens apareciam sentados, um descontraído e de pernas cruzadas, o outro em posição mais formal.
"Isto foi captado numa reunião entre os ministros das Finanças alemão e português", explicou o historiador. "Decorreu em Bruxelas num gabinete da delegação portuguesa uma hora antes da reunião do Ecofin, o conselho dos ministros das Finanças da União. Antes das cimeiras é normal haver estas reuniões bilaterais, normalmente sem testemunhas, para que as duas partes discutam assuntos de interesse mútuo. Foi o caso, como poderão constatar."
Tomás carregou no play e a imagem começou a rolar.
"Ach, meu caro Augusto, tenho aqui um problemazinho que preciso 476
de resolver consigo", disse em inglês uma voz com um sotaque gutural, evidentemente do ministro alemão. "Nada que com boa vontade não se possa ultrapassar, não é verdade?"
"Então, Günter? Que se passa?"
"Tenho uma empresa lá na Alemanha que está com dificuldade em obter encomendas", disse. "Eles fabricam submarinos de guerra mas, desde a queda do Muro de Berlim, ninguém está interessado nas maquinetas deles.
Não há compradores para a porcaria dos U-Boote."
"Pois é, acabaram-se as encomendas militares, não é? Esses fabricantes vão todos à falência..."
O alemão suspirou.
"É uma grande Scheisse, porque esses tipos são bons amigos, financiaram a campanha do meu partido nas últimas eleições, está a ver?
Vieram pedir-me ajuda e, como compreende, não posso dizer-lhes que não.
Já falei com os gregos e eles vão comprar quatro submarinos, mas é necessária outra encomenda. Então estava a pensar se a Marinha portuguesa não andará a precisar de uns submarinos..."
"Submarinos, Günter?", admirou-se o ministro português. "Para que queremos nós submarinos? Temos o Barracuda e já nos dá água pela barba.
Não precisamos de mais."
"Ach, você não está a compreender, Augusto", rosnou Günter, endurecendo o tom. "Temos-vos ajudado nos fundos de coesão, como sabe, e vocês têm derretido o nosso dinheiro em estradas e obras públicas, entregando-o a construtoras amiguinhas que vos financiam as campanhas eleitorais." Baixou a voz e piscou o olho ao seu interlocutor. "Também vos dão umas verbazitas para as vossas contas pessoais, ou não dão?" Emitiu uma gargalhada intimidatória antes de retomar o tom normal. "Ou seja, o dinheiro dos contribuintes alemães tem sido usado para financiar os vossos esquemas e os vossos partidos. Pois preciso agora que nos devolvam o favor e usem o dinheiro dos contribuintes portugueses para financiar esta empresa que ajudou o meu partido lá na Alemanha." Mostrou os dentes, como um 477
felino a ameaçar a presa. "Entendeu?"
Sentindo que tinha pouco espaço de manobra, o ministro português remexeu-se no 1ugar.
"Quanto é que uma coisa dessas custa?"
"Um submarino anda à volta dos quatrocentos e cinquenta milhões de euros."
"Ah, não pode ser! Andamos com o Orçamento do Estado apertadíssimo, nem imagina! Não há dinheiro."
O ministro alemão forçou uma gargalhada.
"Ó meu caro Augusto, não diga isso!", exclamou, a voz carregada de insinuações. "Esta empresa de que lhe falei está na disposição de apoiar os nossos partidos amigos em Portugal com uma quantia... digamos, generosa." Olhou o outro em busca de cumplicidade. "Penso que me está a entender, nicht wahr?"
O governante português endireitou-se, subitamente alerta. "Uma quantia generosa para o meu partido?" "Jawohl."
O ministro de Lisboa afinou a voz, a postura alterada.
"Na verdade já ouvi os almirantes protestarem com o Barracuda, dizem que está muito velho e coisa e tal. Pode ser que tenhamos mesmo de fazer essa compra, aliás absolutamente essencial para a defesa da longa costa portuguesa." Baixou a voz. "Essa quantiazinha que referiu.., quão generosa seria ela?"
"Quinze milhões por um submarino."
O português emitiu um assobio apreciativo.
"Ena, isso é interessante!", exclamou. Fez uma breve careta contrariada.
"Sabe, o problema é a oposição lá em Portugal. Eles vão logo questionar o negócio e fazer ondas e... e será uma chatice. É difícil explicar a compra de submarinos tão caros e tão evidentemente inúteis, não é verdade?"
"Não consegue falar com eles?"
"Com o principal partido da oposição em Portugal?" Fez um gesto de hesitação mas balançou afirmativamente a cabeça. "Sim, isso pode de facto 478
resolver-se. Teremos é de lhes dar uma parte do dinheiro, claro. Assim ficam todos satisfeitos e ninguém questiona nada."