Desligou o telefone e ficou de olhar perdido na janela. Por cima dos telhados podia ver a cúpula iluminada do Duomo, mas a última coisa naquele momento presente no seu pensamento eram as maravilhas arquitectónicas de Florença. Agora que resolvera a inopinada situação em que se metera, precisava de desatar o nó que envolvia a mãe no Lugar do Repouso antes que ela fosse expulsa, mas a hora e a distância pareciam acorrentá-lo ainda.
A verdade é que não havia maneira de se assegurar de que as suas contas bancárias já estavam desbloqueadas. Com toda a certeza as autoridades não tinham tido tempo para resolver esse problema.
Suspeitava até que teria de meter uns requerimentos em Lisboa e envolver-se numa complicada burocracia até conseguir superar a dificuldade. Assim sendo, de que lhe valeria falar com Maria Flor? A directora tornara muito claro que os proprietários não queriam conversa, mas o dinheiro em falta. E acesso ao seu próprio dinheiro era o que ele, bem vistas as coisas, ainda não tinha.
Nessas condições, a única coisa que poderia fazer era ir buscá-la 514
ao lar e tratar dela enquanto o bloqueio das contas bancárias não se resolvesse. O problema é que ele se encontrava em Florença e, mesmo que apanhasse o primeiro voo da manhã, apenas poderia ter a esperança de chegar a Lisboa ao princípio da tarde, uma vez que de permeio teria de apanhar um voo de ligação, pelo que só chegaria a Coimbra umas duas horas depois. No entretanto, só Deus sabia o que aconteceria à mãe. Como poderia sair daquela alhada?
Um toque na porta interrompeu-lhe os pensamentos. Estranhando uma visita a hora tão imprópria, enrolou-se na toalha de banho, abriu a porta e espreitou para o corredor.
"Posso?"
Era Raquel.
"Passa-se alguma coisa?"
A bela espanhola, que se encontrava envolvida num roupão branco, tirou as mãos de trás das costas e exibiu uma garrafa de espumante italiano e dois copos.
"Trouxe isto para comemorarmos", disse ela com um sorriso juvenil.
"Terminou o nosso pesadelo e parece-me uma óptima razão para improvisarmos uma pequenita fiesta, não achas?"
Tomás abriu totalmente a porta e, com um gesto, fez-lhe sinal de que entrasse.
"Vamos a isso."
A agente da Interpol invadiu-lhe o quarto e encheu os copos de champanhe.
"Qué pasa? Estás com cara de caso."
"É a minha mãe. Ando preocupado com ela."
"A tua mãe?", admirou-se a espanhola. "Aconteceu-lhe alguma coisa?"
O historiador sacudiu a cabeça; explicar a situação da mãe parecia-lhe muito complicado e até inútil, uma vez que Raquel não o poderia ajudar.
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"Não aconteceu nada", disse. "Esquece." Pousou o olhar nos copos que ela acabara de encher e, esforçando-se por deixar as preocupações de lado, até porque nada poderia resolver nesse instante, tentou animar-se. "Então, esse champanhe?"
A visitante estendeu-lhe o copo dele e depois ergueu alto o seu.
"Salud!"
"Tchim-tchim!"
Tomás tinha sede e, fechando os olhos, engoliu todo o champanhe do copo de uma só vez. Quando reabriu as pálpebras quase deixou cair o copo. O roupão de Raquel escorregara até aos pés e ela estava nua diante dele, o corpo sinuoso e bem desenhado, o peito arrebitado e ofegante, os grandes olhos verde-esmeralda a cintilarem.
"A fiesta tem banquete", ronronou ela, deslizando para a cama e abrindo os braços convidativos. "Faz-me o que devias ter feito naquela sala de demónios, cariño..."
"O champanhe não estava mal", murmurou o português, contemplando o corpo bem desenhado da mulher, "mas o prato principal parece de arromba!"
Com um gesto rápido e uma gargalhada travessa, a espanhola agarrou a toalha que o cobria e puxou-a, desnudando-o também.
"Hola!", exclamou ela, arregalando os olhos perante o que via.
"Também não me posso queixar..."
Tomás deixou-se resvalar para a cama e, como um náufrago, afundou-se num abraço feito de gemidos e suspiros, sentindo a carne quente e palpitante da mulher, a pele aveludada a tornar-se leitosa e arredondada nos seios e nas nádegas, a garganta a arquejar de volúpia, os olhos entreabertos de desejo, as entranhas húmidas e sequiosas, os corpos a contorcerem-se no dueto de um movimento sincronizado, os lábios molhados entreabertos com sofreguidão, gulosos e glutões, as línguas sôfregas a digladiarem-se numa refrega sedenta, imitando os corpos na gula insaciável de amantes que se 516