"O gajo é juiz de profissão, s'ô professor. A malta de Bruxelas quer mostrar assim que leva esta coisa muito a sério e que o processo vai ser a doer. Houve um tipo que disse no telejornal que uma situação extraordinária como esta crise requer um juiz extraordinário."
"Já vi que você anda a seguir as notícias, Horácio."
"Pois atão, tenho de seguir! Preciso de perceber se terei ou não de fechar o estaminé, n'é? As notícias ajudam-me a topar o que se passa neste mundo louco!" Fez um gesto a indicar o televisor. "Esse juiz, por exemplo, é a nossa grande esperança! Um homem íntegro e religioso como não há muitos!"
"Religioso? Como sabe você isso?"
"Atão não sei, s'ô professor? Noutro dia contaram a vida dele ali na televisão. O homem chamava-se Bagus ou coisa qu'o valha, e aos vinte e tal anos mudou de apelido e adoptou o nome de um personagem bíblico."
"Seth?"
"Seth, terceiro filho d'Adão e Eva, irmão de Caim e Abel", disse Horácio.
"Leia a Bíblia, sô professor! Leia o Génesis, 4:25!"
"Pois, tem razão. Seth foi concebido para substituir Abel, que Caim tinha morto. Se bem me lembro, a tradição judaica estabelece Seth como antepassado de Noé, o que faz dele antepassado de todos nós, não é verdade?"
"Tem nome de planta, dizem."
"Nome de planta?", admirou-se Tomás. Fez um esgar, pensativo.
"Quer dizer, a origem etimológica do nome Seth está na palavra hebraica que se refere à semente das plantas. Suponho que isso faz de Seth uma semente."
O homem fez um novo gesto na direcção do televisor. "A semente da justiça", proclamou. "Um santo nome para um santo homem!"
69
Nesse semestre Tomás não tinha aulas, razão pela qual aceitara o trabalho que lhe fora solicitado pelo Museu Arqueológico de Atenas, mas isso não impedia que houvesse coisas para fazer. Haviam sido publicadas recentemente em Israel novas descobertas referentes aos manuscritos do Mar Morto e o historiador queria incorporar essa informação na matéria do semestre seguinte.
Depois do almoço, Tomás regressou por isso ao seu apartamento.
Foi preparar um café e acomodou-se no escritório com o caderno de apontamentos para as aulas, uma lupa e as cópias dos pergaminhos de Qumran que lhe haviam chegado recentemente de Jerusalém.
Começou a lê-los e a rabiscar a tradução no caderno, mas depressa se sentiu oprimido pela solidão e ligou o rádio em busca de companhia.
O som de uma canção dos U2, "Sometimes You Can't Make It on Your Own", encheu o escritório e embalou-o para o trabalho. Os pensamentos dos essénios eram realmente apaixonantes, em particular a sua visão da grande batalha final entre os filhos da luz e os guerreiros das trevas, ou seja, entre o bem e o mal, Deus e o Diabo. Parecia-lhe evidente que os essénios faziam a ligação entre o pensamento zoroástrico, que profetizava a derrota de Ahriman no fim dos tempos, e a escatologia cristã, que previa a chegada do Reino de Deus e a submissão dos ímpios ligados ao mal.
Às três da tarde em ponto, como sucedia de hora a hora, a estação de rádio onde o seu aparelho estava sintonizado interrompeu a programação musical para um pequeno noticiário.
Soou o curto genérico musical do noticiário e uma voz Masculina rasgou o ar.
"Boa tarde, o Tribunal Penal Internacional anunciou que irá marcar para breve a sessão preliminar do processo para investigar as causas da crise e acusar formalmente os responsáveis por crimes contra a humanidade", anunciou o apresentador. "O anúncio seguiu-se à nomeação do presidente da Comissão Europeia, Axel Seth, para juiz desse processo. Seth 70
tem exigido que o processo seja mais célere, de modo que se punam o mais depressa possível os especuladores, que ele responsabilizou pelo caos na economia mundial."
O noticiário prosseguiu com informações sobre os preparativos para a Cimeira Europeia em Roma, onde a crise das dívidas soberanas seria de novo discutida daí a alguns dias, mas a atenção de Tomás regressou aos manuscritos do Mar Morto e à teologia dos essénios, assuntos que lhe pareciam bem mais apaixonantes.
Nesse instante tocou o telemóvel.
"Boa tarde", cumprimentou a voz feminina do outro lado da linha com uma certa musicalidade. "Posso falar com o professor Tomás Noronha?"
"Sou eu mesmo."
"Olá, professor. Daqui Graciete Batalha, do gabinete do director da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. O senhor director convocou-o para uma reunião amanhã de manhã, pelas nove horas. O professor Água pode contar consigo?"
"Com certeza." Hesitou. "Qual é o assunto?"
Foi a vez de a voz do outro lado hesitar.
"Isso... enfim, não posso dizer, receio bem", balbuciou a secretária, evidentemente embaraçada. "É... é matéria confidencial."