O historiador desviou o olhar para as mesas vazias; teria sido realmente impensável ver o restaurante assim no ano anterior.
"Que aconteceu?"
"São os cortes nos salários, sô professor. Isso e mais a subida do IVA. O governo está a apertar, a apertar, a apertar... Uns abutres!
Onde irá isto parar, meu Deus? Só lhe digo, é uma desgraçal..."
"Pois é, Horácio. Também eu já levei um cortezinho no ordenado."
O anfitrião inclinou-se para o cliente e Tomás sentiu-lhe o fedor ácido a transpiração e o bafo quente de vinho tinto.
"Lá p'ró Norte a coisa 'inda é pior, sô professor. Sou de Santo Tirso, como sabe. Pois as fábricas por lá estão todas a fechar, é um horror. Aqui em Lisboa as pessoas nem fazem ideia. A minha prima Ermelinda, o Zé da Pipa, o Chico Lingrinhas... anda tudo nos centros de emprego à cata de trabalho. E não há nada de nada, o que pensa o senhor? Aqui em Lisboa ainda há o estado e todos os 66
negócios em redor dele, como os restaurantes e o comércio, tudo a alimentar-se dos funcionários públicos. Mas lá em cima não há nada, sô professor, as pessoas estão entregues a si mesmas. A Ermelinda, coitadinha, já fala em emigrar p'rá Suíça ou p'ró Canadá, como há anos fez o pai dela, o Ti Nando. E o resto do pessoal está na mesma."
O cenário não era animador e Tomás ficou sem saber o que dizer.
"Pois é, Horácio. Isto parece mesmo difícil."
O homem do restaurante respirou fundo, como se ele próprio estivesse já a preparar-se para fugir para o estrangeiro.
"Atão não está, sô professor? Estes políticos falam, falam, mas não fazem nada! Só sabem apertar e gamar, e a malta é que se lixa, n'é verdade?"
"Pois é, pois é."
Horácio retirou o bloco de apontamentos do bolso e preparou-se para tomar notas.
"Ora diga lá, sô professor", entoou num tom subitamente profissional. "O que vai ser hoje? Temos um bacalhau à Zé do Pipo que está um estalo. E a douradinha... ui, veio tão fresquinha qu'até parece qu'inda se passeia pelo mar, a malandra."
"Está mesmo fresca ou isso é conversa?"
O empregado fez uma expressão ofendida.
"Or'essa, sô professor! Acabou de vir da lota, eu próprio fui lá buscá-la. Um mimo, só lhe digo."
"Então traga-a lá."
"A douradinha grelhada com arrozinho de tomate e um copinho de branco, sô professor?"
"Isso." Ergueu o dedo para fazer uma ressalva. "Branco do Douro, se fizer o favor. Bem geladinho."
O empregado registou o pedido no bloco de notas e afastou-se em passo apressado. Tomás recostou-se na cadeira e descontraiu; tinha 67
fome e o peixe grelhado vinha mesmo a calhar depois da dieta forçada a moussaka e calamari na esquadra de Atenas.
Sem nada para fazer enquanto esperava pelo prato, desviou a atenção para o televisor pregado à parede. Decorria o noticiário e um apresentador orelhudo com expressão sisuda dava notícias frescas da crise; uma imagem gráfica ao lado dele mostrava o rosto compenetrado do presidente da Comissão Europeia, um juiz de profissão que abraçara a política, e, por baixo, a palavra "inquérito".
"Axel Seth foi nomeado juiz do processo judicial às origens da crise financeira e económica", noticiou o apresentador. "O processo está a ser conduzido pelos procuradores Agnès Chalnot e Carlo del Ponte, a quem o presidente da Comissão Europeia exige resultados rápidos. O juiz Seth responsabilizou os mercados financeiros e os banqueiros gananciosos pelo colapso da economia mundial e acusou-os de terem um plano secreto para destruir o estado social."
O ecrã encheu-se com a imagem do homem-forte de Bruxelas, um francês alto e magro, a falar num palco em tom solene perante uma plateia atenta de homens engravatados.
"Os especuladores, essa gente sem rosto que opera na sombra e busca o lucro fácil à custa do trabalho e do sofrimento do cidadão comum, têm de responder pelos seus actos criminosos, porque a culpa, meus caros amigos, a culpa não pode morrer solteira!", declarou o juiz Seth com grande convicção, as palavras pronunciadas com força, gestos enfáticos a reforçá-las. "Aqui assumo pois o meu compromisso de que a justiça actuará, célere e impiedosa, no sentido de restituir a ordem e punir os responsáveis pela dramática situação em que o mundo mergulhou!"
Uma entusiástica salva de palmas no auditório acolheu estas palavras. O apresentador passou para a notícia seguinte e Horácio regressou à mesa com o couvert, uma cesta de pão e um queijo de Azeitão fatiado.
"G'and'a homem!", exclamou o empregado com um suspiro aprovador. "É
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ele que vai pôr enfim a malandragem na ordem!"
"Convenhamos que é um bocado estranho o presidente da Comissão Europeia ser nomeado juiz..."