Depois considerou a possibilidade de mudar de trabalho; afinal nada o obrigava a ser historiador até ao fim da vida. Telefonou ao Matias, um colega do liceu de Castelo Branco que ocupava um cargo de direcção numa grande empresa de vendas a retalho e com quem mantinha contactos regulares, e perguntou-lhe se tinha alguma coisa de interessante em perspectiva. Matias acolheu-o bem, como seria de esperar, mas esclareceu logo que as coisas andavam mal, a empresa estava a dispensar pessoal e não tinha margem para fazer novas contratações a não ser para carregadores de material de armazém, tarefa para a qual ele, Tomás, não estava evidentemente vocacionado. Além disso já não tinha idade para andar a carregar caixas às costas.

"Onde vai isto parar, meu Deus, já não há dinheiro para nada, nós que ainda há cinco anos íamos de férias para as Caraíbas com o dinheiro que os 82

bancos nos imploravam que aceitássemos a juros baixíssimos!", lamentou-se Matias num desabafo já no final da conversa. "Até faziam telefonemas para minha casa a perguntar se não queríamos mais um emprestimozinho, veja lá, o juro está baixinho, diziam, vá lá, o senhor sempre fica com mais uns tostõezinhos, vai a Cancún e a Punta Cana com a sua senhora e os pequerruchos, nós financiamos que somos uns porreiraços, não vê que até temos anúncios na televisão a oferecer crédito como se fossem papos-secos?

E agora, e agora..."

E agora Tomás não tinha emprego.

83

X

Saiu muito cedo de casa nessa manhã de segunda-feira. O céu azulava e o bafo luminoso da aurora crescia ainda no horizonte.

Dirigiu-se à paragem do autocarro; decidira não voltar a usar o automóvel enquanto não arranjasse trabalho. Esperou dez minutos até o laranja da Carris aparecer. Quando o viu chegar quase se arrependeu da promessa de deixar o carro na garagem; o autocarro vinha apinhado de passageiros. Contudo não se deixou desencorajar e saltou para bordo.

"Um euro e setenta e cinco por um bilhete?", admirou-se quando teve de pagar. "Ena, isto está caro!..."

A observação arrancou gracejos aos outros passageiros.

"Olha lá, em que mundo é que andas, pá?", perguntou um homem de barba rala. "Isto agora é pagar e calar. Somos nós a trabalhar e os gajos, os políticos, a roubar!"

"Eu pago quase cinquenta euros por um passe L1", soltou uma mulher de faces coradas e ar de poucos amigos. "Um escândalo, é o que é! um roubo! Gatunos!"

Tomás quase lamentou ter-se queixado em voz alta do preço do bilhete. Furou a massa compacta de passageiros e foi instalar-se a meio do veículo, perto da porta de saída. Olhou pela janela e avaliou o trânsito; felizmente não era muito compacto, o que significava que a viagem seria relativamente rápida. Lembrou-se do que era o trânsito naquela mesma rua àquela hora uns anos antes e sentiu um arrepio 84

percorrer-lhe o corpo; parecia impressionante como a circulação automóvel diminuíra tanto em apenas dois ou três anos.

Saltou para o passeio quinze minutos depois e encaminhou-se para o seu destino, um prédio branco de traça ultrapassada, um daqueles formigueiros inestéticos construídos nos anos 60 e 70, de varandas transformadas em marquises de alumínio pavorosas. Uma longa fila de gente enchia o passeio da esquina à porta e Tomás interpelou a última pessoa, um rapaz de barba densa e cabelos revoltos.

"É esta a bicha para o centro de emprego?"

"É sim."

"Caramba, é enorme!"

O rapaz sorriu sem humor.

"E são só oito da manhã", observou. "Espere mais uma hora e já vai perceber." Indicou um poste distante. "Está a ver aquele poste ali ao fundo, ao pé do semáforo? Daqui a pouco a bicha chega lá."

"A sério? Assim tão cedo?"

"A malta quer ficar com as primeiras senhas. Senão arriscamo-

-nos a nem sequer ser atendidos. É por isso que há gente que chega aqui às cinco da manhã. Só quando o centro abrir portas e o pessoal começar a tirar as senhas é que a bicha desaparece. Quem chegar mais tarde já não apanha senha nenhuma."

A situação era pior do que Tomás alguma vez imaginara. É certo que via nas notícias que o desemprego disparara, mas sempre achara que aquilo era um exagero dos jornalistas. No fim de contas até então sempre tivera trabalho e as pessoas à volta dele também. Ao pôr-se nessa manhã na fila do centro de emprego, porém, tomou enfim consciência da verdadeira dimensão do problema; o tamanho da fila àquela hora era eloquente.

"Isto está mesmo mal, hem?", observou para o rapaz com quem entabulara conversa. "Há quanto tempo anda à procura de emprego?"

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"Um ano."

"Tanto tempo? Qual é a sua área?"

O rapaz suspirou.

"Tirei Direito e quando saí da faculdade pus-me a fazer oficiosas.

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