"Fique com comprovativos de que contactou a empresa à procura de emprego", disse a funcionária sem pestanejar, quase como se recitasse um refrão. "Se mandar o currículo por carta registada, por exemplo, guarde o registo dos correios. Se for à empresa procurar trabalho, solicite uma declaração de que o fez."

Levantou o indicador para sublinhar o ponto essencial. "Se não tiver

comprovativ o s ,

p e r de

o

d i r e it o

a o

s u b sí dio

d e

d e s e m p r e g o , e n tendeu?"

O historiador tudo entendeu, mas foi com sentimentos mistos que abandonou o balcão; estar sem trabalho dava, pelos vistos, algum trabalho. Além disso, aquela ideia de se apresentar quinzenalmente na junta parecia-lhe própria de um presidiário em liberdade condicional. Mas enfim, o que poderia fazer?

Ao cruzar a porta e sair para a rua quase chocou com outra pessoa que também abandonava o edifício. Olhou para ela e reconheceu o rapaz barbudo com quem conversara na fila matinal para a senha.

"Isso dos comprovativos é simples", explicou o jovem quando o 92

ainda perplexo Tomás o questionou sobre as burocracias relacionadas com a actividade de desempregado. "Vá ao portal Sapo Emprego na internet e envie o seu currículo por e-mail às empresas lá registadas. O

próprio computador lhe dá o comprovativo de que enviou o e-mail. Guarde-o."

"E depois?"

" D e p o i s a s e m p r e s a s c o n t a c t a m - n o , c l a r o . "

Considerando as montanhas de dificuldades que antevira, Tomás estranhou a facilidade do processo.

"Isso funciona?"

O rapaz riu-se.

"Claro que funcionar", exclamou. "Volta e meia recebo uma resposta das empresas. Querem que vá a uma entrevista ou que vá prestar provas ou até que entre já no dia seguinte ao serviço. Há umas até que estão muito ansiosas por arranjar pessoal."

O historiador hesitou, desconcertado com a informação; havia ali com certeza alguma coisa que lhe estava a escapar.

"Mas se as empresas o querem contratar, isso é... é óptimo!", constatou. Indicou o centro de emprego com o polegar. "O que está aqui a fazer?"

O seu interlocutor fez uma careta.

"Respondo-lhes sempre que já arranjei trabalho e mando-os dar uma volta."

"Perdão?"

"Oiça, esses trabalhos não me interessam", explicou com uma ponta de impaciência. "Querem pessoal para atender ao balcão ou um operário de têxteis que trabalhe todo o dia fechado na fábrica ou um angariador imobiliário que ande de porta em porta ou um camionista que transporte mercadorias para a Polónia... eu sei lá!" Fez uma careta de escárnio. "Não tirei o curso de Direito para andar a guiar camiões ou passar os dias numa fábrica, pois não? Era o que mais 93

faltava! Para isso já me bastou a aventura na garagem do meu primo."

A resposta deixou Tomás embasbacado. Durante dois segundos abriu e fechou a boca sem produzir qualquer som, até conseguir por fim formatar em palavras a interrogação que lhe enchia a mente.

"É trabalho!", disse, quase escandalizado. "Nos tempos que correm qualquer coisa serve, não lhe parece? Com tanta falta de emprego que por aí há, isso parece-me excelente!..."

O rapaz abanou a cabeça.

"Mas em que mundo anda o senhor?", questionou de novo em tom irónico. "Não temos por aí tantos imigrantes estrangeiros a trabalhar?" Arregalou os olhos para enfatizar a ideia principal. "O que não existe é o trabalho que eu quero com o salário que aceito!"

Tomás permaneceu um instante especado no passeio, um olhar abismado estampado na cara.

"Oiça, não se pode pensar assim..."

O seu interlocutor esboçou um gesto impaciente com a mão.

"Não me venha com conversas dessas, parece a minha mãe!", disse. "Olhe, sabe o que me preocupa? É o meu primo, que ainda não me pagou os últimos dois meses em que trabalhei lá na garagem!

Isso é que me preocupa!" Fez um estalido com a língua. "Tenho de ir lá falar com ele."

"A garagem não é em Coimbra?"

"Pois é. Mas estou teso que nem um carapau e ando a adiar a viagem. Talvez quando receber a próxima mensalidade possa..."

"Por acaso vou amanhã a Coimbra", atalhou Tomás. "Se quiser, dou-lhe boleia. Dá jeito levar companhia, sempre vou mais entretido."

O rapaz, que virava já as costas para se ir embora, deteve-se e fitou o historiador.

"A sério? Fixe!"

Trocaram contactos. O rapaz chamava-se Alexandre e marcaram 94

o ponto de encontro no Campo Pequeno para o dia seguinte.

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