"Como sabe, nós também não estamos grande coisa"' disse. "A crise alastrou pela Europa e depois da Islândia, dos países bálticos, do Leste da Europa, da Grécia e da Irlanda, Portugal foi atingido com toda a força por este furacão destruidor antes de ele seguir para Espanha e Itália. Desde que o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia cá chegaram que isto é só cortar, cortar, cortar. O
desemprego disparou e a austeridade não tem fim."
"Então não sei?", retorquiu Tomás. "Cortaram-me o salário e aumentaram os impostos. A vida está cada vez mais difícil e parece que 74
não vamos para melhor."
"Os principais cortes estão a decorrer na saúde, na Segurança Social e nos transportes, onde as despesas estavam pelos vistos descontroladas. Mas a razia estende-se a todos os sectores do estado e, receio bem, envolve também o Ministério da Educação."
"Parece que houve milhares de professores do secundário que não foram colocados, não foi?"
O director da faculdade revirou os olhos.
"Um horror!"
"O que nos vale é a autonomia do ensino universitário", observou Tomás. "Senão, também os tínhamos à perna!..."
A observação desencadeou um ataque de tosse do anfitrião.
João Água bebeu um gole de água e, quando pousou o copo, respirou fundo, como se ganhasse balanço.
"Pois, o problema é que a autonomia universitária tem limites", observou. "E os maiores limites têm a ver justamente com a questão do financiamento. Como sabe, o estado está sem dinheiro e por isso deixou de ser o principal financiador das universidades. Para compensar a perda desses fundos, temos andado a virar-nos para os privados e a fazer investigação vocacionada para o mercado e paga pelas empresas. Essa actividade tornou-se uma importante fonte de financiamento. Outra são as propinas, claro. O problema é que a crise tem estado a afectar também todo o sector privado, que retraiu as suas despesas e deixou de nos fazer encomendas, e as famílias, que têm menos dinheiro disponível para pagar propinas. Há até um número crescente de estudantes a desistir da faculdade por falta de dinheiro. Ou seja, o estado, as empresas privadas e os estudantes começaram a pagar menos, o que significa que entra menos dinheiro nas universidades. A situação está a tornar-se insustentável."
"Então, presumo eu, é preciso cortar nas despesas."
"Pois, é justamente isso o que estamos a fazer. Controlámos os 75
gastos em energia, nas fotocópias, em material educativo, em equipamento de limpeza, na compra de livros.., enfim, cortámos em tudo o que podíamos cortar."
Fez-se um silêncio inesperado no gabinete.
"E então?"
O director da faculdade abanou a cabeça.
"Não chega."
"Não chega como?"
"Não chega."
"Tem de chegar", insistiu Tomás. "As despesas têm de ser equivalentes às receitas, isso é evidente. É uma questão de ver qual a principal fonte de despesa da faculdade e actuar aí."
João Água agitou-se no seu lugar; parecia incomodado e o seu subordinado percebeu que isso não estava relacionado com o cadeirão onde se encontrava sentado, mas com o tema da conversa.
"A nossa principal fonte de despesa é o pessoal", indicou. "Mais exactamente o quadro docente."
"A sério?", admirou-se o historiador. "Não fazia ideia. Qual é o peso dos professores nas despesas da faculdade?"
"Mais de noventa por cento."
A revelação deixou Tomás boquiaberto. Por momentos chegou a pensar que ouvira mal, o peso era tão incrível que só poderia tratar-se de um equívoco, mas o semblante carregado do seu interlocutor não lhe deixava dúvidas. Ouvira bem. .
"Noventa por cento?"
O director balançou afirmativamente a cabeça.
"Receio bem que sim."
"Mas... mas... como é isso possível?", questionou o historiador, ainda atónito. "Não há outras despesas?"
"Haver, há. Mas são relativamente marginais. Repare, uma universidade é sobretudo feita pelos professores e pelos alunos. Tudo 76
o resto, se for a ver bem, é coisa pouca. São as instalações e alguns funcionários administrativos ou de limpeza, a generalidade com salários baixos. A fatia de leão das despesas vai para os professores, como é evidente. Acredite ou não, eles levam mais de noventa por cento do orçamento anual."
Tomás permanecia estarrecido; nunca imaginara que as universidades gastassem tanto no corpo docente. Mas, bem vistas as coisas, os professores eram realmente os principais activos das universidades. Sem eles nada seria possível.
"E... e agora?"
"Temos de cortar as despesas", repetiu o director da faculdade.