"As receitas caíram e, como o professor reconheceu ainda há momentos, os gastos têm de se adequar a essa realidade. Em conformidade, iniciámos um programa para reduzir o nosso quadro de pessoal. Passei toda a semana a chamar aqui ao meu gabinete professores que não pertencem ao quadro para lhes explicar a situação e lhes dizer que, infelizmente, não podemos continuar a contar com eles, como seria nosso desejo, devido à situação terrível em que nos encontramos."

O silêncio voltou ao gabinete, mais pesado que nunca. Tomás manteve os olhos cravados no seu anfitrião, tentando digerir o verdadeiro significado do que acabara de escutar. Ele próprio, tomou consciência, não pertencia aos quadros e fora chamado pelo director.

"O professor convocou-me para... para me despedir?"

Incapaz de se suster perante a brutalidade da pergunta, o olhar de João Água baixou para o soalho de cerejeira do gabinete. O director engoliu em seco antes de reunir coragem para voltar a encarar o seu abismado interlocutor.

"Lamento muito, Tomás."

77

IX

Um enorme e profundo vazio instalou-se na vida de Tomás.

Chegou nessa manhã a casa com a angústia a pesar-lhe no peito e deitou-se na cama ao abandono, sentindo-se invadido pelo mais absoluto dos despojamentos. Era como se tivesse sido declarado um inútil, um falhado, um pedaço de nada, reduzido à insignificância, humilhado, descartado como um trapo sem valor.

Derrotado.

Sim, a palavra que melhor definia o seu estado de alma era mesmo essa. Fora derrotado. Pela vida, pela universidade, pela crise.

Aquela maldita crise que desde 2008 vinha a ruminar, longínqua mas sempre a aproximar-se com insidiosa malícia, até o atingir com a força de um murro no estômago. Um murro não, um pontapé. E que pontapé! Abalara-o de alto a baixo, atingira-o no seu âmago mais profundo, vergara-o com a simplicidade desconcertante de apenas três palavras.

"Lamento muito, Tomás."

A frase que lhe fora dita apenas uma hora antes ainda lhe reverberava na memória. O director dissera que lamentava muito. Lamentaria mesmo? Que idiota, aquele tipo! Como era fácil dizer a alguém que se lamentava uma coisa e depois passar à frente, adeus que eu tenho mais que fazer. O director lamentava, mas continuava no seu emprego, confortável, o salário assegurado, decerto de consciência tranquila; despedira um subordinado com palavras delicodoces e um ar compungido adequado, mas o mais provável era àquela hora já se ter esquecido do assunto e 78

estar entretido a apalpar as tetas da secretária.

Ele, Tomás, não esquecera. Fora ele afinal quem realmente ficara com o problema nas mãos, ou não fora? O problema do director resumira-se ao anúncio da decisão, o seu problema era viver com as respectivas consequências. Respirou fundo e esforçou-se por ir para além do ressentimento e da humilhação e perceber que o director se limitara a fazer o que tinha de fazer. Não fora pessoal, pensou repetidamente. Não fora pessoal.

"Não foi pessoal uma ova!", murmurou com fúria mal contida, vertendo em palavras os pensamentos que lhe fervilhavam na mente.

"Não foi pessoal para ele, cabrão!, mas foi bem pessoal para mim!"

Revirou-se na cama e esforçou-se por pensar noutra coisa. Como se sentia só! Lembrou-se da filha e da mulher de quem se separara e sentiu uma enorme saudade delas, uma saudade tão grande que lhe fez doer o corpo e lhe roubou o ar nos pulmões. Ah, como se sentia só e como daria tudo para refazer a sua vida com as que perdera. Mas a realidade era aquela e não outra. Aprendera no Tibete que a vida era mudança e o sofrimento resultava da incapacidade de aceitar essa verdade cruel. A vida é mudança. Se queria sobreviver, se tencionava reerguer-se, se desejava uma segunda oportunidade, teria de interiorizar isso.

A vida é mudança.

O pensamento martelou-lhe a consciência e agarrou-se a ele como uma bóia de salvação. Se a vida era mudança, o que acabava de lhe acontecer não passava de um reflexo dessa realidade, decerto mais fácil de enunciar do que de aceitar. Mas teria de aceitar e viver com a realidade. A vida era mudança e a sua acabara de mudar.

Quanto mais depressa interiorizasse isso mais depressa se poderia reerguer. E para o fazer teria de lutar. Lutar.

O pensamento deu-lhe energia. Levantou-se da cama e, com ânimo súbito, disposto a não se deixar vencer, empenhado em fazer 79

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