ram subsidiados pelo estado. Diziam que era a custo zero e mentiam com todos os dentes. Só as Scut custam quinze mil milhões de euros aos contribuintes! Para que perceba melhor a enormidade deste valor, basta dizer que todo o dinheiro que o estado recolheu por nos aumentar os impostos e cortar os salários só deu para pagar pouco mais de metade das Scut." Apontou para os seus dois companheiros de viagem. "Você e aqui o Tomás estão no desemprego porque é preciso remunerar este desvario eleitoralista! E isto é apenas a ponta do icebergue. Por exemplo, em 2001 mandaram-se construir dez hospitais em regime de PPP. Dez anos depois, só um tinha sido inaugurado, o de Cascais, entretanto renegociado... a expensas, claro, dos contribuintes. Os projectos dos hospitais derraparam sucessivamente e nos próximos trinta anos irão custar oito mil milhões de euros ao erário público, valor quase equivalente a todo o dinheiro que o estado português recolheu com as medidas de austeridade até 2012. O terminal de Alcântara foi negociado sem concorrência e por ajuste directo, condições propícias à corrupção, e renegociado com prejuízo para os contribuintes. A Casa da Música, mandada construir para celebrar em 2001 o Porto Capital Europeia da Cultura, só foi inaugurada cinco anos depois do evento, após atrasos e renegociações penalizadoras para os dinheiros públicos. O projectista atrasou-se na entrega do trabalho e, em vez de ser penalizado, foi premiado com mais de um milhão de euros!" Fez um gesto expressivo com a mão. "Paga, Zé!"

"Há ainda os estádios do Euro 2004", lembrou Tomás. "Isso é que foi um bem produtivo, hem?"

"Então não foi?"

"Quantos estádios foram? Sete?"

Filipe abriu as palmas das duas mãos.

"Dez", exclamou com ênfase. "Sete era o que a UEFA exigia, mas os nossos

voluntariosos

governantes,

pessoas

que

respeitam

escrupulosamente o dinheiro dos contribuintes, mandaram construir em 117

regime de PPP um total de dez estádios, bem mais do que os necessários, a um custo de quase setecentos milhões de euros. Só o estádio de Braga teve um desvio médio relativo ao custo previsto muito superior a trezentos por cento. O governante com a pasta do Desporto, José Lello, tendo sido informado de que o estádio de Leiria iria custar o equivalente a vinte milhões de euros, é citado como tendo dito: 'Vinte milhões? Tem de ser muito mais!' Primeira pergunta: porquê? Resposta: porque havia uns governantes e uns autarcas parolos que queriam brilhar junto do seu eleitorado. Segunda pergunta: que riqueza geram os estádios? A relação custo-benefício foi devidamente acautelada? Não. O

que foi acautelado foi a reeleição desses autarcas e o brilharete dos governantes junto do eleitorado e, má-língua decerto, dos construtores amiguinhos. Terceira pergunta: o que aconteceu a esses estádios? A resposta é triste. O volume das receitas geradas nos estádios de Leiria, Loulé e Aveiro é insuficiente para cobrir as despesas. Os prejuízos são tantos que a Câmara de Aveiro até já anda a pensar em demolir o dela."

Olhou para o condutor. "Pergunto-te eu: alguém foi preso por estes crimes contra a economia portuguesa?"

A pergunta desencadeou um ataque de riso do historiador.

"Que eu saiba não."

"Mas as parcerias público-privadas serviram ainda para outra coisa", indicou Filipe. "As PPP rodoviárias passaram em 2007 para uma coisa chamada Estradas de Portugal, que mais não parece do que um esquema concebido para fazer desaparecer dinheiro. O valor actual líquido dos encargos previstos para essas PPP era em 2009 de doze mil milhões de euros, valor que no ano seguinte desceu por artes mágicas para cinco mil milhões."

Tomás fez um rápido cálculo de cabeça.

"São menos sete mil milhões", observou. "Para onde foi esse dinheiro?"

"Sei lá! Nunca isso foi explicado nem justificado de uma forma 118

adequada! Mas o facto é que, de um ano para o outro, desapareceram sete mil milhões de euros em termos de valor actual líquido! Alguém foi preso?"

O condutor, sempre de olhos na estrada, sorriu.

"Pois..."

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