"Repare, meu caro, se você não abrir a fábrica, o que irá acontecer? Há dez trabalhadores que vão continuar no desemprego, além de você, claro. Todos a receberem o subsídio de desemprego de um estado que já está falido. Além disso você não produz riqueza nenhuma, pelo que o fisco fica de mãos a abanar. O que ganhou o estado com isso? Nada. Só ficou a perder."

"Pois, admito."

"Ou, se mesmo assim quiser abrir a fábrica, pode fazê-lo... na República Checa. Os trabalhadores aí são mais baratos e mais qualificados. Ou na Irlanda, onde só se paga doze e meio por cento de IRC e é mais fácil despedir trabalhadores se as coisas correrem mal. Ou seja, Portugal perdeu o seu investimento e a República Checa ou a Irlanda ganharam-no. Dez trabalhadores irlandeses ficaram com o emprego, o estado português ficou com os encargos sobre os dez desempregados que você empregaria e não empregou e sem cobrar uma percentagem, mesmo que pequena, sobre os lucros que afinal você vai ter noutro país."

O passageiro do banco traseiro abanou a cabeça.

"A seguir essa lógica, a escravatura é que era boa..."

"É o que pensa, e pratica, a China comunista", observou Filipe, sublinhando a palavra comunista. "Vivemos numa economia global e estamos a competir com países que têm os seus habitantes na miséria absoluta, a trabalhar como escravos a troco de quase nada.

Não digo que desçamos a esse nível, não precisamos, mas nalguma coisa teremos de ceder."

"Os Alemães não cederam", observou Alexandre. "Vivem na mesma economia global em competição com a China e não baixaram o seu nível de vida."

"Está muitíssimo enganado", corrigiu-o Tomás, quebrando o 124

silêncio com a conversa que escutara na cela de Atenas bem presente na memória. "Em 2003 os Alemães iniciaram uma política de degradação dos salários reais e de cortes nas despesas e no estado social. É por isso que hoje a economia deles está saudável.

Adaptaram-se à competição. Além do mais, têm uma economia de bens transaccionáveis de alta tecnologia e utilizam o capital para a apoiar. Já nós, em vez de investirmos na qualificação da nossa economia transaccionável, utilizámos o capital, insisto, para fazer betão. O estado investiu em auto-estradas, as famílias em casa própria, automóveis e férias, enquanto muitas empresas têm vivido à custa do crédito que lhes tapa os buracos e financia os investimentos. Se a dívida pública portuguesa é uma catástrofe, a dívida privada é ainda pior."

Meio contorcido para encarar o companheiro de viagem que se encontrava no banco traseiro, Filipe retornou o fio da conversa.

"Deixe-me no entanto retomar o exemplo do seu projecto de uma fábrica de sapatos." Fez uma pausa teatral. "E se o estado português o ajudasse? E se o estado português lhe desse metade do dinheiro para pagar a maquinaria? E se o estado português pagasse a formação dos seus trabalhadores? E se o estado português lhe baixasse o IRC? Nesse caso você faz as suas contas outra vez e...

pimba, descobre que tem lucro!"

"Aí já posso abrir o negócio em Portugal."

"Claro! Era isso que devia ter sido feito, em vez de se estourar a massa toda no betão! Olhe o que fez a Irlanda. Em 1960 a Irlanda era o quarto país mais pobre da Europa ocidental. O quarto mais pobre!

Mas em 1994 teve um ministro das Finanças chamado Ruairi Quinn que mudou esse destino. O senhor Quinn decidiu cortar brutalmente os impostos para as empresas."

Alexandre quase saltou no banco traseiro.

"Isso é neoliberalismo, exclamou em tom de acusação, a revolta a 125

incendiar-lhe o espírito. "Foram essas ideias neoliberais que nos conduziram ao estado em que nos encontramos!"

Filipe esboçou um gesto de desagrado.

"Isso do neoliberalismo são catalogações criadas para intimidar os críticos e inibir quaisquer reformas", disse. "Na verdade o senhor Quinn era socialista." Levantou o dedo para sublinhar o ponto.

"Socialista, entendeu? Tão socialista como o chanceler alemão Gerhard Schrõder, que em 2003 reduziu os salários reais e cortou no estado social para restituir competitividade à economia alemã." Baixou o dedo. "Acontece que o pai do senhor Quinn tinha sido um bem-

-sucedido comerciante de automóveis e isso permitiu-lhe perceber como funcionava o mundo dos negócios. Então o que fez ele?

Manteve as despesas do estado sob controlo férreo e isso deu-lhe margem para a sua experiência revolucionária: baixou o IRC das empresas para doze e meio por cento."

"Neoliberalismo!"

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