"A verdade é que uma fatia crescente das receitas e das despesas públicas foi colocada fora do Orçamento do Estado. Os esquemas para o fazer são inúmeros. O estado e as câmaras têm limitações orçamentais? Abrem-se umas empresas estatais e municipais para fazerem despesa não controlada pelo Orçamento do Estado nem pelo parlamento. Foram criadas perto de mil sociedades de capitais públicos para gastar à farta e sem controlo e os dinheiros públicos têm de alimentar mais de treze mil entidades, entre institutos, fundações, observatórios e afins. Os hospitais gastam muito dinheiro e isso está a aumentar a despesa do Orçamento do Estado? Em vez de controlar a despesa transformam-se os hospitais em empresas públicas, como aconteceu em Lisboa com o Curry Cabral, e assim deixam de fazer parte do Orçamento, que fica mais magro e permite aos governantes dizerem com ar sério e pose de estado que estão a diminuir os gastos. A despesa continua a ser feita, claro, mas ficou invisível. Através de todas essas empresas públicas, os governos contraíram grandes empréstimos e fizeram despesas brutais sem que nada ficasse registado no Orçamento do Estado."
"Se bem me lembro", atalhou Tomás, "os geniais homens e mulheres que nos governaram ao longo do tempo chamavam a isso 'engenharia orçamental'."
"Pois
eu
chamo-lhe
aldrabice,
gatunagem
e
vigarice
desavergonhada!", exclamou Filipe. "É como se um hotel começasse a arder e os donos decidissem esconder esse facto dos hóspedes para manter a reputação do estabelecimento." Balançou a cabeça. "O
curioso, meus caros, é que ficaram todos muito admirados quando 119
viram que o país se incendiou! Para alijar responsabilidades, desataram a dizer que a culpa é toda da crise internacional..."
Fez-se silêncio dentro do automóvel. Os três ocupantes iam de olhar fixo na estrada e o passageiro de trás amadurecia o que acabara de ouvir. Já todos tinham lido coisas sobre o assunto, claro, mas eram notícias soltas, aparentemente sem relação umas com as outras, como folhas num galho. Dessa vez era diferente, tudo aparecia relacionado, via-se toda a árvore e vislumbravam-se até os primeiros contornos da floresta.
"Isso é uma tristeza", acabou Alexandre por reconhecer, tentando redireccionar a conversa para o ponto por onde ela tinha começado.
"Não podemos esquecer, no entanto, que as infra-estruturas são necessárias num país. É evidente que houve inúmeros abusos, má gestão e aldrabice, mas isso não invalida a necessidade dessas obras.
Como pode a economia crescer se não houver infra-estruturas?"
"Claro que os bens não-transaccionáveis são importantes", aceitou Filipe. "Mas não podem é constituir o centro da actividade económica nem desequilibrar as contas públicas, como acabou por acontecer em Portugal! Em vez de apostar em coisas que se exportassem, os governos optaram por derreter o dinheiro em betão.
Foi este o sector da economia que cresceu e que atraiu os melhores salários. Para responder à competição do sector não-transaccionável, o transaccionável teve de aumentar os salários, o que fez com que os seus produtos encarecessem e se tornassem menos atraentes do que os estrangeiros. Aconteceu assim uma coisa incrível: não só os produtos portugueses se tornaram pouco apelativos para os consumidores estrangeiros, por serem demasiado caros, como se tornaram pouco apelativos para os próprios consumidores portugueses! Considera isto aceitável?"
Alexandre ficou sem saber o que dizer.
"Realmente..."
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"Vendo uma coisa destas acontecer, o que fizeram os governos?"
Ao volante Tomás encolheu os ombros.
"Assobiaram para o ar", disse com um sorriso amargo. "E, se bem me lembro, anunciaram grandes investimentos na economia, não foi?"
"Investimentos em quê? Mais obras públicas, mais betão, mais bens não-transaccionáveis!" Filipe soltou uma gargalhada. "Uns génios!
Umas luminárias! Os nossos governantes eram tão bons, tão bons, que nos conduziram alegremente à bancarrota, os idiotas! Tornaram o sector não-transaccionável a estrela da economia, afundaram aí milhões e milhões de euros, atraíram para aí os melhores talentos, esmagaram o país sob um manto de betão! Auto-estradas, Scut, estádios... foi uma pândega!"
"Mas as construtoras civis estão agora a trabalhar em Angola e noutros países", observou Alexandre. "Desse modo estão a exportar, não estão?"