"São os fundos comunitários", indicou. "Se a União Europeia pagava, porque não aproveitar?"
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O silêncio regressou ao interior do Volkswagen. Apenas se ouvia o rugido suave do motor instalado na traseira do automóvel, coisa a que Filipe não estava habituado; tratava-se de uma idiossincrasia daquele modelo em particular.
"Foi assim que Portugal foi parar ao buraco..."
Disse-o num sussurro imperceptível, com excepção da última palavra, que elevou a voz para pronunciar. O condutor, que se distraíra com a estrada, quase deu um salto no assento.
"Buraco?", quis saber com o alarme a encher-lhe o rosto e os olhos a esquadrinharem apressadamente o alcatrão em busca de uma ameaça. "Onde?"
"No país", explicou Filipe com uma gargalhada. "Estava a falar com os meus botões, a dizer que foi a construir estas auto-estradas todas que o país se meteu no atoleiro em que agora se encontra."
Tomás quase bufou de alívio.
"Ah, bom! Estava a ver que ainda pisava um buraco..."
Descontraiu e tirou por momentos os olhos do caminho. "Sabes, a governação tem sido um caos."
Filipe indicou o exterior.
"Pois tem. Olha, se estás no desemprego também o deves a estas auto-estradas todas."
No banco traseiro sentava-se o rapaz do centro de emprego a quem haviam dado boleia. A ouvir a conversa até aí em silêncio, Alexandre remexeu-se no assento e não aguentou mais.
"Peço desculpa, mas isso não faz sentido", declarou. "Qual a relação entre as auto-estradas e o desemprego? Que eu saiba, a construção das auto-estradas deu até emprego a muita gente."
Filipe virou a cabeça para trás.
"Ilusões", disse. "Tudo ilusões."
"Como pode dizer isso? A auto-estrada que estamos a percorrer não é nenhuma ilusão."
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"Olhe, o desemprego que existe resulta de várias crises que se manifestaram ao mesmo tempo", indicou, levantando três dedos.
"Digamos que, à crise de fundo provocada pela transferência da produção do Ocidente para as economias emergentes, se acrescentaram três crises: a dos mercados financeiros, a do euro e a das economias periféricas, incluindo a portuguesa. São coisas separadas, embora a dos mercados financeiros tenha posto a nu as outras, claro. As crises do Ocidente, do euro e da economia portuguesa já existiam, mas estavam silenciosas."
O rapaz do banco traseiro esboçou uma expressão céptica.
"Sim, e depois?", questionou com uma certa insolência. "O que têm as auto-estradas a ver com isso? A sua construção não deu emprego a tanta gente? Como se pode questionar tal evidência?"
"Tenha calma", riu-se Filipe, divertido com a impaciência do companheiro de viagem. "Tem de compreender que as crises financeira e do euro se manifestaram com grande aparato e atingiram toda a gente no planeta, mas houve países que foram mais afectados que outros porque já estavam em crise por razões próprias, embora não o tivessem percebido."
"Está a falar de nós?"
"De nós e da Grécia, por exemplo, mas não só. A Irlanda, a Espanha e a Itália também sofrem de problemas até aqui silenciosos. É
isso que explica que estes países tenham sido mais atingidos que outros quando surgiu a crise financeira e a crise do euro."
Persistente, Alexandre indicou a auto-estrada.
"Está a insinuar que a nossa crise foi provocada pela construção da rede de auto-estradas? Isso é um disparate!"
"A crise da economia portuguesa tem várias causas, umas internas e outras externas. As internas são da nossa responsabilidade e relacionam-se com a perda de competitividade dos nossos produtos no mercado internacional e o recurso à dívida para disfarçar essa realidade, 113
com a crescente insustentabilidade do estado social e com a aposta descontrolada no sector produtivo não-transaccionável."
"Sector não-transaccionável? O que é isso?"
Foi a vez de Filipe apontar para a estrada.
"Olhe, as auto-estradas, por exemplo", indicou. "Será que podemos vender auto-estradas aos estrangeiros? Não podemos. É
um bem que não pode ser transaccionado. Já os sapatos podem ser vendidos ao estrangeiro. Ou a roupa, o vinho e o azeite. São bens transaccionáveis.
Acontece
que
os
sucessivos
governos
portugueses, chefiados por gente iluminada, decidiram que o melhor era mesmo investir no sector não-transaccionável, em coisas que não pudessem ser exportadas. Pusemo-nos assim a construir estradas, pontes, aeroportos, estádios, rotundas, túneis... eu sei lá!
Está a ver como estas auto-estradas constituem parte do problema?"
"Que eu saiba as obras públicas deram trabalho a muita gente!"
"Mas não são exportáveis, entende? Pior ainda, o estado garantiu esses investimentos por muitos e longos anos. Mesmo que queiramos, já não podemos deixar de gastar dinheiro neles."