A firewall era poderosa, havia que reconhecê-lo, mas sabia que o calcanhar de Aquiles estava no fabricante. Quase todas as instituições bancárias usavam barreiras de protecção colossais produzidas por uma mesma empresa, uma companhia californiana com trabalho de grande qualidade, embora padecesse de um defeito que o intruso identificara havia algum tempo: as firewalls eram sempre concebidas com a mesma arquitectura. Quem soubesse como funcionava a cabeça do programador, cedo ou tarde acabaria por perceber como quebrar as barreiras montadas para manter os hackers afastados.

Acontece que Decarabia conhecia o fabricante daquela firewall bem de mais. Vira-o, estudara-o, testara-o. Quebrara-o.

"Piece of cake", exclamou, regurgitando auto-satisfação pela sua 131

proeza. "Brincadeira de crianças."

Respirou fundo, ganhando ânimo para a segunda parte da operação. Agora que conseguira penetrar no sistema havia que alcançar o objectivo e retirar-se sem ser notado, como um caçador furtivo. Inseriu na rede interna do banco uma fotografia do seu alvo e carregou na tecla search. Uma ampulheta minúscula materializou-se no ecrã, sinal de que o computador estava a fazer a busca. Ao fim de alguns segundos formou-se a imagem do ficheiro de um cliente, os movimentos da conta em baixo, o nome e a fotografia em cima.

Filipe Madureira.

"Gotcha!", soltou Decarabia, dando um soco no ar como um desportista no momento do triunfo. "Apanhei-te!"

Era ele.

Passou os olhos pelo ficheiro e estudou as movimentações da conta. Até um mês antes estavam todas concentradas em Haia.

Depois tinham ocorrido alguns levantamentos de dinheiro em Paris, um em Nice, dois em Florença e um em Roma; tratava-se evidentemente da rota da fuga. A seguir apareceu uma tentativa de levantamento numa sucursal da Via del Corso, negada pela caixa. Fora nesta altura que o acesso à conta havia sido negado ao alvo. As duas últimas tentativas de levantamento ficaram registadas nas últimas quarenta e oito horas. Em Lisboa.

Eram estas que interessavam.

Carregou na linha destas últimas tentativas e o ecrã mudou de imagem, entrando numa página que mostrava valores solicitados, datas, horas, e sobretudo a localização das caixas multibanco onde a tentativa fora feita. Comparou as duas linhas e percebeu que ambas as operações tinham sido levadas a cabo com um intervalo de vinte e quatro horas na mesma caixa.

Na mesma caixa.

A descoberta ecoou na mente de Decarabia; esta era a 132

informação mais relevante de todas. Recostou-se na cadeira onde estava sentado e estreitou as pálpebras, a cabeça transformada num super computador, o pensamento a processar aquela pista e a contemplar o seu significado.

"Estás a esconder-te perto dessa caixa", concluiu, os dedos a afagarem pensativamente o queixo. "Ai estás, estás..." Fez um esgar.

"Deves ter por aí alguém conhecido. Um familiar, um amigo..."

O intruso ponderou opções. O alvo estava próximo, já lhe sentia o cheiro, mas ainda não chegara a ele. Ainda não. Precisava de apertar o cerco e montar a emboscada, mas para isso teria de obter mais uma informação. Só mais uma. Como descobrir o paradeiro da pessoa que estava a ajudar o seu alvo?

Meditou durante alguns minutos no problema, considerando e descartando ideias sucessivas; algumas até pareciam boas mas depressa se levantavam um ou dois obstáculos que as inviabilizavam. Contudo, não desistia, não podia desistir, era impensável fazê-lo. Ao descartar uma hipótese considerava a possibilidade seguinte, e quando esta também falhava vinha outra e outra ainda, vinham as que fossem necessárias até por fim atingir o objectivo último.

O olhar incendiou-se de súbito.

"Já sei!"

133

XVII

Uma neblina densa pairava languidamente sobre o Mondego, criando a estranha ilusão de que o casario de Coimbra se erguia sobre as nuvens como uma cidade do céu, a torre sineira da universidade a coroá-la no alto, resplandecente à luz baça da manhã. O velho Volkswagen azul cruzou a rua ladeada de plátanos e virou à esquerda, na zona da Quinta de Santa Comba. Depois de deixar Alexandre a uma esquina, não muito longe da garagem do primo, Tomás meteu por uma ruela que desaguou numa praceta tranquila, rodeada de pinheiros mansos cujos ramos acariciavam os telhados de várias vivendas.

O automóvel imobilizou-se junto de uma moradia branca protegida por um muro coberto de trepadeiras e com uma sebe bem adelgaçada plantada no topo.

"Chegámos!", anunciou o condutor enquanto desligava o motor e puxava o travão de mão. Voltou-se para o companheiro de viagem.

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