"Tenho de ir ver a minha mãe. Ficas aqui ou vens?"

Filipe soltou o cinto de segurança.

"Vou, claro", disse, sempre agarrado ao seu envelope. "Preciso de desenferrujar as pernas."

Apearam-se e dirigiram-se para a vivenda. Ao lado do portão havia um azulejo branco com um nome a azul. O Lugar do Repouso. Entraram no jardim a pisar as pedras semeadas pelo caminho entre a relva acabada de regar, como ilhotas cinzentas num mar verde, e só pararam diante da porta. Tomás carregou na campainha e ouviu um som eléctrico contínuo no interior do edifício.

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Volvidos alguns segundos, a porta abriu-se e apareceu uma mulher de bata e touca branca.

"Professor Noronha!", exclamou ela, reconhecendo o visitante.

"Bons olhos o vejam!"

"Olá", devolveu o historiador, embaraçado por não se lembrar do nome da enfermeira. "Vim visitar a minha mãe."

A mulher da bata branca fez-lhes sinal de que entrassem.

"Venha daí, ela está na varanda a apanhar sol."

O interior da moradia exalava um odor característico, talvez uma mistura de sopas, medicamentos e detergentes; era um cheiro que Tomás inadvertidamente associava à velhice. A enfermeira conduziu os visitantes pelas escadas para o piso superior.

"Como está ela?"

A enfermeira exibiu a mão e dançou com ela no ar, num gesto não muito optimista.

"Tem dias, como sabe", disse. "Hoje parece-me que não é dos melhores, receio bem. Prepare-se."

O aviso desanimou Tomás. Não valia a pena dizerem-lhe que se preparasse, sabia; a verdade é nunca se está verdadeiramente preparado para um dia mau de alguém que sofre de Alzheimer. A degradação do estado da mãe era felizmente muito lenta, mas parecia-lhe inegável que com o tempo ela perdera faculdades.

Dona Graça estava sentada a uma esquina da varanda com uma manta amarela sobre os joelhos, voltada para a mata fronteira à vivenda, os olhos fechados a saborearem o bafo quente do sol. O ar enchia-se do estridular irrequieto dos insectos, sobretudo das cigarras que enxameavam a mata e embalavam a manhã com a sua estranha melodia.

"Dona Graça, olhe quem a veio visitar."

O olhar verde da velha senhora desviou-se para a enfermeira, 135

depois para o filho e a seguir para o amigo que o acompanhava, mas depressa se voltou a fechar, sempre inexpressivo, como se nada tivesse visto de relevante.

Mantendo um sorriso nos lábios, Tomás dobrou-se sobre ela e beijou-a na testa.

"Olá, mãe. Está boa?"

Apanhada de surpresa pelo beijo, dona Graça abriu os olhos com um sobressalto e atirou-lhe uma nova mirada, desta feita prolongada e inquisitiva.

"Quem é o senhor?"

O filho respirou fundo para aparar o golpe; a mãe não estava realmente num dos seus melhores dias. Não era a primeira vez que ela não o reconhecia, mas ainda não se habituara a essa realidade.

Suspeitava aliás que nunca se habituaria.

"Sou o seu filho", retorquiu com suavidade. "O Tomás, lembra-se?"

Ela abanou a cabeça.

"O meu Tomás está na escola", disse ela com súbito orgulho. "A professora disseme que ele é o melhor da classe. Vivaço que até esmilha!" Sorriu. "Ah, sai ao meu pai, que também era muito esperto..."

O filho não insistiu, sabia que em dias assim não valia a pena; as memórias da mãe confundiam-se e parecia evidente que nesse momento a sua mente estava presa num qualquer ponto do passado.

Trocou com ela algumas palavras de circunstância e saboreou também o sol da manhã. Dona Graça manteve-se alheada da sua presença, apenas lhe prestando atenção ocasional. Ao fim de vinte minutos, sentindo-se incapaz de aguentar a situação, o filho deu à mãe um beijo de despedida e abandonou cabisbaixo a varanda.

Os olhos achocolatados da directora da instituição acolheram-no no átrio com um calor que lhe consolou a alma. Maria Flor tinha um esgar sonhador, doce e carinhoso, uma face abolachada, bonita e 136

fresca, com cabelo castanho ondulado em madeixas claras e lábios carnudos que lembravam gomos de laranja; vendo-a sorrir, parecia impossível não pensar em beijá-la.

"Que tal a sua mãe?"

Tomás suspirou.

"Hoje não está grande coisa", disse. "Não me reconheceu."

A directora do lar afagou-lhe o ombro.

"Há dias assim, não se apoquente. Às vezes ela deita os medicamentos fora às escondidas e piora um pouco. Mas vou dar ordens para a acompanharem melhor à hora de tomar os comprimidos. Vai ver que melhora logo."

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