O toque no ombro foi feito para o consolar, mas teve um efeito eléctrico no visitante. Tomás já conhecia Maria Flor havia alguns anos e, apesar de a achar muito atraente, nunca se atrevera a tentar o que quer que fosse. Talvez não passasse de parvoíce, mas ela de certo modo puxava pela sua timidez natural, quase como se o intimidasse.
"Estou certo que sim", acabou por dizer, ciente de que a responsável pelo lar tinha razão. "Da próxima vez que cá vier ela estará melhor."
Ficaram ambos momentaneamente sem saber o que fazer ou dizer. Ele queria alimentar a conversa e partilhar um momento mais com a sua anfitriã, mas não tinha tema. A mãe e a sua velhice não lhe pareciam o assunto mais empolgante para discutir com uma mulher tão interessante e as circunstâncias tornavam desapropriada qualquer iniciativa mais arrojada. Convidá-la-ia para jantar? Ali, no sítio onde a mãe vivia e pouco depois de ela nem sequer o reconhecer? Não podia ser. Além do mais, sentiu a presença de Filipe e da enfermeira atrás dele, a aguardarem o desfecho da conversa. Na verdade havia ainda um assunto para discutir, aquele que ela mencionara ao telefone sem nunca o explicar, mas cabia à directora mencioná-lo.
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"Sabe, professor Noronha..."
"Chame-me Tomás."
Ela hesitou e enrubesceu, mas acatou a sugestão.
"Muito bem... Tomás." Fitou-o com os seus grandes olhos castanho-claros, como se avaliasse a reacção dele à forma como ela pronunciara o seu nome. Depois fez uma careta, a indicar que tinha algo desagradável a dizer. "Sabe, Tomás, telefonei-lhe porque apareceu agora um problema aborrecido que queria discutir consigo.
Não é exclusivo da sua mãe, note bem, mas..."
"Que se passa?", perguntou ele, levemente alarmado com o embaraço que lhe lia nos olhos. "Sucedeu alguma coisa?"
Maria
Flor
suspirou,
claramente
incomodada
com
as
suas
responsabilidades nesse momento.
"É um problema de... de dinheiro."
A palavra surpreendeu Tomás.
"Dinheiro?", estranhou. "Dinheiro como? Vocês recebem na íntegra a reforma dela, não é verdade?"
A directora do lar engoliu em seco.
"Com certeza", assentiu. "O problema é que... a reforma foi cortada, lembra-se?"
"Como?"
"Então não sabe?", admirou-se ela. "Por causa da crise, além de reduzir salários e eliminar subsídios o governo fez cortes nas pensões.
Ela levou uma talhada de quase dez por cento na reforma, veja lá."
Vacilou. "Ela não. Nós. Passámos a receber menos dinheiro, mas temos os mesmos gastos." Abanou a cabeça e suspirou num lamento.
"Ah, é um problema! Como sabe, não sou dona do lar, apenas a directora. Os proprietários já me chamaram a atenção para a questão e... enfim, temos de resolver isto. Há várias pessoas aqui que estão na mesma situação, não é só a sua mãe, pelo que temos pedido às famílias que... que reponham a parte em falta."
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Maria Flor desviou os olhos quando concluiu a sua exposição, evidentemente embaraçada com o que era forçada a pedir.
"Eu daria o dinheiro de muito bom grado", devolveu Tomás, desconcertado com a situação com a qual era confrontado. "O
problema é que perdi o emprego."
A sua interlocutora levou a mão à boca.
"Ah!", exclamou, chocada. "Não me diga!"
"É verdade", confirmou ele. "Também por causa da crise a minha faculdade teve de começar a dispensar os professores que não são do quadro. Fui apanhado na varridela.
Fez-se um súbito silêncio enquanto a directora do lar digeria a notícia e as suas implicações.
"Quer dizer que... que não tem modo de cobrir o dinheiro em falta?"
A pergunta ia direita ao centro do problema e Tomás teve de respirar fundo antes de responder.
"Bem, disponho de algum dinheiro amealhado", disse. "Além do mais, estou agora a receber do fundo de desemprego, claro. Isso dá-me alguma margem."
Maria Flor estudou-o com atenção.
"Sem querer ser indiscreta, esse dinheiro amealhado é coisa que se veja? "
"Não muito, infelizmente. Nem sei se chegará para aguentar a minha mãe muito tempo aqui."
"Então o que vai fazer?"
Tomás respirou fundo.
"Pois, não sei. A verdade é que não posso deixar que a ponham na rua, isso nem pensar. O que tem de ser tem muita força. Preciso de arranjar trabalho, nem que tenha de ir para as obras."
A sua interlocutora soergueu as sobrancelhas.
"Quais obras? Não vê que a construção civil está parada?"
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"Era uma forma de expressão", explicou ele. "O que quero dizer é que farei tudo o que for preciso para resolver o problema."