A directora do lar ficou por momentos a fitá-lo, os olhos presos nele, evidentemente a matutar no problema. Depois respirou fundo e esboçou um sorriso fraco, mas suficientemente caloroso para pelo menos lhe aquecer o coração. De seguida e sorriso desfez-se.
"Isto é uma chatice", desabafou com desânimo. "Os proprietários do lar não querem nem um tostão em falta. Como as pensões dos reformados estão a ser reduzidas, as famílias têm mesmo de entrar com a diferença. Os Proprietários disseram-me que comunicasse às famílias que têm de repor a diferença até... até quinta-feira à noite."
Tomás fez um gesto de desalento; como era terça-feira, seria daí a dois dias.
"Quinta-feira? Veja se me dão mais algum tempo..."
Maria Flor voltou a pousar a mão no ombro dele, derramando a doçura quente do seu olhar sobre a expressão preocupada do visitante.
"Posso falar com eles, mas não vão aceitar..."
O historiador suspirou, resignado.
"Está bem, terei de avançar com as minhas poupanças", rendeu-
-se. "Quando chegar a Lisboa vou pedir ao banco que faça uma transferência, não se apoquente."
140
XVIII
Uma vez dentro da rede interna do banco, o acesso às gravações das câmaras de videovigilância daquela sucursal em particular revelou-
-se relativamente simples. Depois de desencriptar a palavra-chave, Decarabia inseriu-a no sistema e entrou na página de segurança.
Procurou a ligação à sucursal e entrou.
"Então vamos lá a ver!...", disse para si próprio, entrelaçando os dedos e fazendo-os estalar pelas articulações enquanto contemplava a informação que enchia o ecrã. "O primeiro levantamento foi feito pouco depois das três e meia da tarde de ontem..." Passeou os olhos pelo banco de imagens e procurou o registo da câmara que gravara as operações àquela hora. "Ora bem... ora bem... o que queremos é o que a câmara da caixa multibanco registou. Ora deixa cá ver."
Clicou no arquivo da câmara da caixa e escolheu as imagens gravadas entre as três e as quatro da tarde de segunda-feira. Uma imagem vídeo encheu de imediato o ecrã.
Via-se um plano largo que mostrava o passeio e a rua, com circulação normal de peões e viaturas de um lado para o outro. De repente um peão dirigiu-se à câmara, inseriu um cartão multibanco na ranhura da caixa, digitou o código de acesso e as instruções, retirou o dinheiro e o cartão e abalou dali, os bolsos mais aconchegados.
"Vamos lá, vamos lá!...", impacientou-se o intruso. "Quando é que aparece o nosso homem?"
O vídeo de segurança continuou a rolar no ecrã, mostrando cenas 141
repetitivas. O passeio, pessoas a passarem para a esquerda e para a direita, a rua, automóveis e autocarros e motos de um lado para o outro, um cliente que se dirigia à máquina, levantava o dinheiro e se ia embora, depois mais passeio e mais rua, outro cliente, e assim sucessivamente. Tudo muito monótono.
Decarabia bocejou.
"Shit! Isto anda ou não anda?"
O hacker mantinha um olho na imagem e o outro preso à contagem dos minutos.
15:23:15.
Ainda mais doze minutos de espera! Se pudesse, faria fast forward para chegar rapidamente à hora que desejava, mas o dispositivo que o permitia não estava disponível no ecrã.
Decididamente a rede interna do banco ainda tinha coisas a melhorar.
Foi buscar um café. Não quis estar ausente muito tempo, não fosse o seu alvo aparecer na imagem antes do previsto, pelo que depressa voltou ao lugar. A imagem parecia normal e verificou de novo a contagem do relógio.
15:26:47.
Mais do mesmo. Passeio, rua, transeuntes, automóveis, clientes. E
tudo a passar incrivelmente devagar, dava a impressão de que o tempo fazia de propósito para o irritar. Estudou a imagem que enchia o ecrã.
Felizmente a câmara da caixa multibanco parecia usar uma grande angular, pensou; isso permitia-lhe ter uma visão ampla do que se passava naquele espaço e estudar cada uma das pessoas que por ali deambulavam, da origem ao destino.
O olhar baixou para o relógio.
15:32:03
Três minutos. O tédio desapareceu, substituído por um assomo de concentração. A todo o instante o seu alvo iria aparecer na 142
imagem. Viria da esquerda ou da direita? Estaria já acompanhado?
Decarabia fazia votos ardentes de que sim; isso poupar-lhe-ia imenso esforço. Não que temesse o trabalho; o que se passava é que a rapidez era essencial.
15:34:11.
Um minuto. Varreu o ecrã com atenção redobrada, detendo-
-se no rosto de cada pessoa que passava. Segundos depois viu um homem aproximar-se do ecrã, o cabelo em desalinho, a barba por fazer, o olhar cansado, a ansiedade estampada na face.
"Ah, cabrão!", exclamou. "Apanhei-te!"
Era Filipe Madureira.