Sem hesitar, Balam endireitou-se e tirou uma navalha do bolso traseiro dos calções. Hervé observou-o com o horror a crescer-lhe nos olhos, receando que a ordem lhe dissesse respeito a si. Em vez disso o agressor aproximou-se de Éric. Pegou-lhe pelo cabelo grisalho de modo a endireitar-lhe a cabeça e, com um gesto repentino, passou-lhe a lâmina pelo pescoço e o sangue começou a jorrar em golfadas. O
parisiense virou a cara e fechou os olhos, mas isso não o impediu de ouvir o sangue a borbulhar do pescoço e o espernear impotente das pernas de Éric durante alguns segundos até ao estertor final.
Quando tudo ficou de novo quieto, Hervé sentiu o agressor aproximar-se dele.
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"É a tua última oportunidade", sussurrou Balam, quase como se segredasse. "Onde está o DVD?"
A imagem e o som da brutal execução de Éric ecoavam na mente do prisioneiro no momento em que, a medo, levantou os olhos assustados e encarou o verdugo. Balam tinha as mãos ensanguentas e manchas encarnadas a sujarem-lhe o pólo azul do Yacht Club do Mónaco. A navalha suja dançava-lhe na ponta dos dedos.
"Por favor", gemeu, as lágrimas a começarem a rolar-lhe pela face inchada e manchada de sangue e transpiração, "não me mate!..."
O agressor inclinou-se e fitou-o com intensidade, como se a paciência tivesse chegado ao limite.
"O DVD?"
Hervé percebeu que não dispunha de qualquer alternativa. Se queria sobreviver, tinha de cooperar. Uma voz dizia-lhe na cabeça que, fosse qual fosse a sua decisão, o destino estava traçado; ia ser morto. Mas uma esperança cega calou essa voz interior e a vontade de viver revelou-se tão grande que o fez acreditar que poderia escapar se desse ao agressor o que ele viera buscar.
"Não o temos", murmurou, pela primeira vez a admitir implicitamente que sabia bem o que os desconhecidos procuravam.
"O DVD está com... com outra pessoa." Balam arreganhou os lábios e exibiu os dentes.
"Quem?"
A pergunta foi feita tão próximo que Hervé sentiu o hálito a vinho do
carrasco.
O
coração
do
prisioneiro
ribombava-lhe
descontroladamente no peito e os lábios entumecidos pelas pancadas tremiam-lhe de medo e dor.
"O português", confessou, a arfar de medo. "É o português... é ele que tem esse maldito DVD."
Consciente de que o homem à sua mercê dizia a verdade e revelara enfim tudo o que sabia, Balam endireitou-se, pousou-lhe a 18
mão sobre a cabeça como se o afagasse e, com súbita brutalidade, puxou-o pelos cabelos. Com a ponta da navalha suja ainda a cintilar, fez um movimento rápido e degolou-o como havia degolado Éric dois minutos antes.
19
I
O cheiro a mofo e a pó das antiguidades era o suficiente para manter qualquer pessoa de bom senso o mais afastada possível do armazém dos documentos raros, mas o odor bafiento dos papéis a desfazerem-se com os séculos era para Tomás Noronha o melhor dos bálsamos. Com as mãos enlu-vadas, como requerido pelo protocolo quando se manuseiam manuscritos tão antigos, o historiador português pegou no rolo de pergaminho bolorento e estendeu-o sobre o estirador. Aproximou a lâmpada da superfície amarelecida e iluminou as linhas misteriosas que percorriam o velho documento como uma cifra arcana; parecia vagamente árabe mas era algo diferente, infinitamente mais enigmático e difícil de decifrar.
"Que alfabeto é esse, professor?"
A pergunta foi feita pelo homem que lhe entregara o rolo, o responsável pela equipa de arqueólogos que dias antes o chamara a Atenas e o arrastara até àquela cave sombria do Museu Arqueológico.
"Avéstico", respondeu o historiador português, os olhos fascinados a deslizarem pelas palavras que enchiam o rolo. "A língua é a das escrituras do zoroastrismo, usada na Pérsia até ao século VI antes de Cristo."
"Então confirma que esse texto é mesmo dos Avestá?"
Absorto no texto diante dele, Tomás não respondeu; na verdade nem ouviu a pergunta, tão concentrado estava nas palavras que devorava com fascínio incontido. Nunca imaginara vir um dia a estar diante de um manuscrito daqueles. E a sua surpresa ia aumentando à 20
medida que decifrava as palavras ali gravadas havia mais de dois milénios, como se o copista da antiguidade as tivesse escrito especificamente para ele. Parecia incrível que uma descoberta de tal magnitude lhe viesse cair nas mãos daquela maneira.
"Diga-me, professor Markopoulou, onde foi que vocês encontraram isto?"
"Nas ruínas da Biblioteca de Pantainos", devolveu o arqueólogo. "Ali na zona da ágora."