"Isso já vocês me disseram quando me convidaram a vir cá", observou sem desviar a atenção do pergaminho decrépito, quase como se tivesse medo de que ele desaparecesse. "Mas onde exactamente?"
"Na escavação da parte da biblioteca junto à Porta de Atena.
Demos com uma câmara subterrânea totalmente protegida da humidade.
Era aí que os rolos estavam guardados."
Tomás não tirava os olhos do manuscrito; o seu conteúdo era demasiado fascinante, deixara-o hipnotizado. Mesmo que quisesse, não seria capaz de afastar dali o olhar. E quem o poderia censurar? Não era aquilo o sonho de qualquer historiador? Parecia impossível um documento tão antigo ter sobrevivido tanto tempo nas condições de humidade típicas da Europa. Se fosse no Médio Oriente, isso não o surpreenderia; as descobertas de Qumran e de Nag Hammadi constituíam a prova de que os climas secos de Israel e do Egipto eram os mais adequados para a preservação de manuscritos antigos. Mas... a Grécia?
"Este texto é impressionante", murmurou, assombrado.
"Verdadeiramente impressionante!"
O arqueólogo grego que lhe fazia companhia aproximou mais a cabeça para contemplar o rolo aberto no estirador, como se só o facto de o olhar lhe permitisse arrancar do texto os seus segredos.
"São mesmo Os Avestá?", perguntou de novo. "Confirma-se, 21
professor?"
Tomás assentiu com um suave movimento afirmativo da cabeça.
"São os Avestá, são", anuiu. "Mais exactamente o Gathas, o livro dos dezassete hinos que se pensa terem sido escritos pela mão do próprio Zoroastro."
O professor Markopoulou indicou o rolo bafiento cujas palavras misteriosas a luz amarelada da lâmpada acariciava com um hálito quente, resgatando o texto da treva que durante milénios o abrigara da curiosidade humana.
O historiador português aproximou o olhar de uma palavra sem as últimas letras, substituídas por um pequeno buraco cavado pelo tempo e talvez aberto pelas traças, num esforço para lhe extrair o sentido que o furo escondera.
"É um trecho sobre Angra Manyu."
"Quem é esse?"
Pela primeira vez, Tomás desviou a atenção do manuscrito e encarou o seu colega com um sorriso que as sombras da cave tornaram vagamente sinistro, como se a atmosfera daquele lugar lúgubre fosse a mais adequada para o tema que o texto invocava.
"O Diabo."
Ao ouvir o nome maldito, o arqueólogo abriu muito os olhos e recuou instintivamente, quase assustado; parecia recear o próprio manuscrito.
"Perdão?"
O português passou a palma da mão por cima do rolo aberto no estirador e redigido no alfabeto avéstico, como se o quisesse acariciar.
"Este trecho do Gathas descreve-nos o aparecimento de Angra Manyu", revelou, a voz abafada pelo ambiente opressivo da cave escura. "Sabe, o zoroastrismo foi a primeira religião monoteísta. O
judaísmo, o cristianismo e o islão vieram beber ao zoroastrismo, que nasceu na antiga Pérsia. Os textos pré-zoroastrianos falam na vinda 22
de Mitra, que nasceria numa gruta, evento que seria assinalado por uma estrela."
"Isso parece-me familiar..."
"Vejo que é observador. Os evangelistas cristãos inspiraram-se obviamente nesta lenda para falar no nascimento de Jesus numa gruta e na estrela de Belém", explicou. "Depois veio Zoroastro, um ser humano com ligação a Deus e que impôs o monoteísmo. O seu verdadeiro nome seria Zarosht Spitama, igualmente conhecido por Zaratustra, e parece que era um zaotar, ou sacrificador. Ou seja, um mago, uma casta clerical que naquele tempo existia na Pérsia."
"Mago, hem? Também isso me parece familiar."
"Com certeza. O conceito dos três reis magos que seguiram a estrela de Belém é outra evidente influência zoroastriana nos evangelhos cristãos. Acontece que Zoroastro estabeleceu que só existe um Deus, Ahura Mazda, literalmente o Senhor Sábio, o Criador do Céu e da Terra, o juiz supremo, mestre da matéria e do espírito, único, omnipotente e omnisciente. Foi a primeira vez na história da humanidade que uma religião apresentou o conceito inovador de que existe um único Deus.
Toda a doutrina do zoroastrismo se encontra exposta nas suas escrituras sagradas, os Avestá, um conjunto de textos redigidos ao longo de centenas de anos e que inclui os Gathas."
O professor Markopoulou fez um gesto na direcção do rolo que o seu colega português estudava.
"Isso são os Gathas?"
"Um trecho dos Gathas."
"E diz-me que fala sobre o... o Diabo?"
Tomás voltou a aproximar a lâmpada do rolo. Ao deslocar-se, a luz fez mover as sombras e criou um efeito surreal, como se a própria cave estivesse assombrada e os fantasmas deslizassem pelo ar bafiento.