"Você vive aqui?", estranhou. "Neste local abandonado?" A espanhola esperava no passeio que ele se habituasse ao estranho cenário que os cercava.

"Aluguei um apartamento. Porquê?"

O português ficou desconcertado com a pergunta, tão evidente era a resposta.

"Bem, é... é um sítio original."

Raquel fez-lhe sinal de que a seguisse e começou a andar na direcção da entrada de um prédio.

217

"O Filipe tinha-me pedido que procurasse um local discreto", explicou. "Mais discreto que isto é impossível, não?"

Tomás estugou o passo e pôs-se ao lado dela.

"Um sítio discreto para quê?"

"Para levar a cabo a investigação, claro. Qualquer que ela seja..."

"Qualquer que ela seja como?", admirou-se o historiador. "Então não sabe qual é a investigação?"

"Claro que não", esclareceu a espanhola, abrindo a porta do prédio e entrando no edifício. "Apenas falei com ele ao telefone e por e-mail e mostrou-se sempre muito cuidadoso com o que dizia, com receio de ser interceptado. Só me faria um briefing completo quando estivéssemos juntos, o que aconteceria depois de ele ter ido a Lisboa. A única coisa que percebi foi que se tratava de uma operação que requeria o maior cuidado."

Entraram no elevador e Raquel carregou no botão do segundo andar. O ascensor deu um solavanco e começou a subir.

"A sua área não é o crime económico ou coisa do estilo?" " N ã o .

S o u u m a m er a o p e r a c i o nal d a I n t e r p ol. " "Então porque a contactou ele?"

"Precisava de protecção. Para quê, não sei."

O elevador chegou ao segundo andar e Tomás abriu a porta, virou-se para a espanhola e, com um gesto galante, fez-lhe uma vénia.

"Faça o favor."

Quando levantou os olhos, viu-a fitá-lo com uma expressão tensa, de predador, gata transformada em fera, uma pistola na mão apontada para ele.

"Quieto, cabrón!", rosnou ela, os olhos verde-claros a chisparem fogo. "Foste apanhado!"

218

XXXI

O s t r ê s h o m e n s d e n e g r o p e r c o r r e r a m a m a n g a d o avião em passo apressado e desembocaram no terminal do Ae r op o r to d e Ba raj as , e m Mad rid. Ca mi nhan do à frente, Decarabia ligou o telemóvel enquanto caminhava e aguardou que o aparelho apanhasse rede. Seguiram as setas a indicar Salida e imobilizaram-se diante do tapete rolante com as bagagens. O tilintar de sucessivos SMS a chegarem ao telemóvel foi o sinal de que a ligação estava estabelecida.

Olhou para o ecrã do aparelho e viu uma sucessão de mensagens engarrafadas. As três primeiras eram informações das operadoras a darem-lhe as boas-vindas a Espanha e a comunicarem-lhe as tarifas de roaming. Apagou essas mensagens e passou para as duas seguintes; tratava-se de vários telefonemas do mesmo número, que reconheceu de imediato. Carregou no botão verde e a chamada para esse número foi devolvida.

"Sou eu, grande Magus", disse Decarabia logo que atenderam do outro lado. "Chegámos agora. Tentou falar comigo?"

"Sim, Decarabia. O nosso contacto secreto dentro da Interpol acabou de me enviar a informação solicitada. Ele conseguiu acesso ao ficheiro confidencial da nossa amiga."

"E então?"

"Parece que essa Raquel de la Concha é uma recruta promissora.

Boa na sedução e traiçoeira nas operações. Usam-na sobretudo como isco para atrair os suspeitos." Pigarreou. "Há no entanto um problema.

219

A gaja meteu férias esta semana."

"Porra! Onde foi ela?"

A voz na linha manteve um tom neutro.

"A informação não consta do ficheiro, como é evidente", disse Magus.

"Mas conseguimos penetrar no endereço pessoal dela na Internet e vimos que a tipa alugou um apartamento numa terriola a sul de Madrid."

"Excelente! Tem a morada?"

"Calle Velázquez", foi a resposta, com indicação do número de porta do prédio e do andar. "Isto é num sítio chamado Seseria."

"Mais alguma coisa?"

"É tudo. Desta vez não falhes, ouviste?"

O homem no Aeroporto de Barajas ia responder, mas a linha morreu nesse instante. Magus tinha desligado.

O operacional guardou o telemóvel no bolso e, com recurso a um iPad, entrou na Internet e digitou o nome da terra que o líder da organização lhe dera. Um mapa de Espanha encheu de imediato o ecrã. Decarabia deslocou o dedo para baixo de Madrid e, a meio caminho de Toledo, uns quarenta quilómetros a sul da capital, lá estava o que procurava.

Sesefia.

Decarabia endireitou-se e, no meio da bagagem de todos os passageiros, viu a mala diplomática saltar para o tapete rolante; era ali que vinham as armas. Inspirou cheio de confiança e sorriu.

"A caçada começou."

220

XXXII

O cano escuro da pistola permanecia voltado para Tomás. O

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