"O plano de acção é muito simples", disse depois de engolir a comida. "Deixe-me descansar ao longo do dia de hoje." Pôs-se a gesticular com o garfo. "Amanhã de manhã vamos a Madrid, levantamos o material que o Filipe me passou e vou tentar decifrar a chave que nos conduzirá ao DVD. O resto será fácil. Vamos buscar esse maldito DVD, espreitamos o que está lá dentro e entregamos o material ao Tribunal Penal Internacional." Encolheu os ombros. "Como vê, nada mais elementar."
A espanhola arqueou uma sobrancelha.
"O Filipe já me tinha falado no TPI", observou. "Mas confesso não 226
perceber bem porquê."
"O TPI abriu um processo aos responsáveis pela crise por crimes contra a humanidade. O DVD contém material relevante para esse processo."
"Tem alguma ideia do que seja?"
Tomás balançou afirmativamente a cabeça.
"O conteúdo é explicado num dossiê que o Filipe me entregou.
Trata-se de matéria muito sensível relacionada com a crise."
"Ah, bueno", assentiu Raquel. "Confesso, no entanto, que não percebo bem a natureza da crise."
"Sabe ao menos como foi ela desencadeada, não?" "Quem não sabe? A bolsa caiu em Nova Iorque e... alastrou pelo planeta."
O português meteu mais uma porção de arroz à boca e esforçou-se por mastigar rapidamente. Depois de engolir encarou a sua interlocutora.
"Está habituada a lidar com crimes?"
"Com certeza", foi a resposta pronta. Enfrentar crimes é a minha profissão."
Tomás pousou o garfo no prato e sorriu, uma expressão de desafio a bailar-lhe no rosto.
"Então vou contar-lhe como foi executado o crime do século."
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XXXIII
O Mercedes negro de vidros fumados deteve-se à esquina da calle Velázquez. Após um instante de espera, como uma fera a ronronar enquanto estudava o terreno para lançar o ataque, começou a rolar devagar; parecia estar a testar as presas, o motor quase mudo e os pneus a fazerem estalar as folhas secas que se espalhavam pelo asfalto sujo.
Com as mãos firmes no volante, Decarabia varreu a rua com o olhar. A calle Velázquez estava estranhamente deserta, apenas atravessada por uma nuvem de poeira que se ergueu da direita e arrastou com ela papéis e plásticos, os sacos a esvoaçarem aos solavancos, para a direita, depois para cima, a seguir com outra direcção e noutra velocidade, sempre ao sabor dos humores voláteis do vento inconstante.
Nada daquilo lhe agradava.
"Estamos mais expostos que um pato numa carreira de tiro", observou. "Temos de sair daqui."
O Mercedes dobrou a primeira esquina e estacionou ao lado de um renque de oliveiras, já abrigado de olhares indiscretos que pudessem espreitar dos prédios alinhados ao longo da calle Velázquez.
Decarabia desligou o motor e, quebrando o súbito silêncio, os três homens saíram do automóvel, os olhares conhecedores a perscrutarem o quarteirão em busca de qualquer ameaça.
Tudo parecia incrivelmente vazio. Apenas se escutava o farfalhar variável da brisa, agora forte, a seguir mais brando, para logo depois 228
voltar a levantar. O claque seco das portas do carro a fecharem-se encheu por instantes a rua, ecoando entre os prédios abandonados.
Decarabia abriu a bagageira e um dos seus companheiros destrancou a mala diplomática, deixando à vista dos três as armas atadas a um painel.
Decarabia estendeu a mão para uma das pistolas.
"A Beretta é minha."
Os seus dois companheiros ficaram com as Glock. Os três homens pegaram nas peças anexas e ajustaram-nas às armas, atarraxando os silenciadores aos canos.
"Estamos prontos para enfrentar um exército", disse um dos operacionais. "Com estas meninas vamos arrasar." Decarabia olhou-o de esguelha.
"Vais é ter juízo, ouviste?", avisou. "Estes brinquedos são para usar com discrição. Não queremos atrair atenções indesejadas."
O homem assentiu com um aceno; era um mero executor, fazia o que lhe mandavam, os outros que pensassem.
Decarabia verificou as balas na sua Beretta e, satisfeito, guardou a arma à cintura. Tirou do bolso o papel e verificou a morada exacta do alvo.
Depois esquadrinhou a calle Velázquez com o olhar, inspeccionando um a um os números fixados sobre as portas, até se deter num edifício ao fundo da rua.
"É ali."
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XXXIV
Os pratos de sobremesa eram uns petit gâteaux que Raquel tirou do congelador e apressadamente cozinhou no microondas. Pô-los tempo de mais no aparelho, uma vez que os doces vieram a fumegar e com o molho de chocolate solidificado. Tomás retirou um pedaço da sua sobremesa e provou-a quase a medo.
"Então?", quis a espanhola saber. "Qual foi o crime do século?"
O seu interlocutor apontou com a pequena colher para o doce pousado diante dele.