historiador sentara-se na cadeira que Raquel lhe indicara e sentia-se infinitamente nervoso por estar sob a mira da arma; quem lhe garantia que, devido a um tropeção ou a qualquer outro incidente, ela não premia acidentalmente o gatilho?

"Isto é ridículo!", considerou. "Faça o favor de afastar essa arma, isso ainda pode..."

"Cale-se!", cortou a espanhola numa voz ameaçadora e autoritária. "Nem se atreva a fazer uni gesto brusco, ouviu?"

Intimidado, Tomás obedeceu. Fora revistado com as mãos encostadas à parede e algemado antes de ser atirado para o sofá, atónito com a forma como havia sido traído; não lhe dissera Filipe que esta rapariga era de confiança? O que mais o incomodava, porém, era a pistola; não conseguia desviar os olhos do cano.

A sua captora sentou-se diante dele e cruzou as pernas, ficando a contemplá-lo em silêncio; parecia estar a ponderar as suas opções e a decidir o que faria.

"O que se passa?", arriscou ele. "Porque me algemou?" Raquel manteve o olhar de gata cravado nele.

"Estou aqui a debater-me com uma dúvida", revelou num tom mordaz. "Devo matá-lo ou entregá-lo à polícia portuguesa?" Uma luzinha cintilou-lhe na íris. "O que acha?"

Assim postas as coisas, a opção preferível parecia-lhe a segunda.

Mas Tomás percebeu que não poderia entrar naquele jogo, teria de 221

entender primeiro o que estava a acontecer para poder lidar com a situação.

"Qual é o seu problema?"

A pergunta enrubesceu a espanhola.

"Como se atreve a fazer essa pergunta?", rugiu ela, o olhar a chispar fúria. "Aconselho-o a não brincar comigo."

"Não estou a brincar com ninguém", retorquiu o português de uma forma categórica. "Não percebo o que se está a passar e agradecia que me esclarecesse, se fizer o favor."

Raquel fitou-o com atenção, esforçando-se por lhe ler a expressão do rosto. A convicção que captou deixou-a um tudo-nada desconcertada.

"O senhor é um assassino", acabou por dizer, talvez com menor firmeza do que gostaria. "Matou o Filipe e veio aqui..."

"Eu matei o Filipe?"

O olhar de Tomás ateou-se com uma expressão de tão genuíno escândalo que a sua interlocutora voltou a vacilar. Puxou o computador portátil que tinha pousado sobre a mesa e começou a digitar no teclado com a mão esquerda, a direita sempre a segurar a pistola.

"Depois do seu telefonema esta manhã contactei o meu serviço para verificar se teria havido algum assassínio em Lisboa", revelou.

"Como deve calcular, a notícia que me deu deixou-me em estado de choque. A resposta veio pouco depois por e-mail. Filipe tinha de facto sido morto e a polícia portuguesa emitiu um mandado de captura com o nome do assassino. Mandaram-me a fotografia que Lisboa enviou para a Interpol com o rosto do suspeito. Quando há ROUCO

você veio ter comigo ao Café Nirvana, pode imaginar a minha surpresa ao deparar-me com a sua cara."

Virou o computador para o português com a imagem difundida pela Polícia Judiciária. Previsivelmente, o ecrã mostrava o seu próprio 222

rosto.

"Não sei como explicar-lhe isto", murmurou ele. "Mas eu não matei o Filipe."

"Então como justifica que a polícia do seu país esteja a difundir a sua imagem e o seu nome?"

"Não sei explicar", confessou. "Mas tenho uma teoria. O Filipe deu-me a entender que a sua investigação mexia com pessoas muito poderosas. Tenho de concluir que são suficientemente poderosas para manipular a polícia portuguesa e lançá-la contra mim."

Raquel considerou o argumento.

"Suponhamos que essa teoria é verdadeira", propôs ela. "Porque fariam isso?"

"Porque existe um DVD muito comprometedor e o Filipe estava na posse dele", explicou. "Os homens que o mataram pelos vistos acreditam que ele me passou esse DVD. Estão a usar a polícia para me capturarem e terem acesso a ele."

"O DVD está mesmo consigo?"

Tomás levou um longo instante a responder à pergunta. "Sim e não."

A resposta suscitou o visível desagrado da espanhola. Raquel fez um estalido impaciente com a língua e agitou a pistola.

"Não brinque comigo!", avisou. "Tem ou não tem o DVD do Filipe?"

"Não tenho", foi a resposta directa. "Receio que ele tenha falecido antes de me dizer onde estava esse maldito DVD. Porém, e quando tentava dar-me essa informação, nos seus últimos momentos, o Filipe apontou-me para uma cifra. Presumo pois que ela contenha o paradeiro do DVD."

"Onde se encontra essa cifra?"

"Num envelope que guardei no cofre de um banco, em Madrid, antes de vir para cá", revelou. "Pareceu-me mais seguro."

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