"Este petit gâteau", indicou. "Cozinhá-lo desta maneira é o crime do século. Não podia ao menos ter preservado o molho de chocolate?"

A anfitriã fez uma careta.

"Vá, não abuse. Ter sobremesa já não é mau, isto não é nenhum restaurante." Mordeu o lábio inferior. "Dizia você que foi cometido o crime do século. Explique lá isso melhor."

Tomás trincou mais um pedaço do seu doce; havia de facto sido demasiado cozinhado, mas continuava delicioso.

"Estamos perante a tempestade perfeita", começou por dizer enquanto se lambuzava com o seu petit gâteau. "A uma crise estrutural do Ocidente e em particular das economias do Sul da Europa juntou-se a crise financeira americana e a crise estrutural do euro."

"Tudo relacionado?"

"De certo modo", assentiu o historiador. "Acontece que as crises estruturais, a do Ocidente, a das economias sul-europeias e a do 230

euro, eram silenciosas e prolongadas. Só se tornaram visíveis graças à crise financeira, que pôs tudo a nu. É um pouco como se vivêssemos numa casa com as estruturas rachadas, está a ver? Um dia vem um terramoto e... pimba, lá vai a casa abaixo! O que dizemos então? Ai, a minha casa foi destruída pelo terramoto!" Estreitou as pálpebras.

"Mas estaremos a dizer a verdade?"

"Sim e não", retorquiu a agente da Interpol. "Sim, porque foi o terramoto a causa próxima. Não, porque a casa já tinha as estruturas debilitadas e mais dia menos dia viria abaixo."

"O mesmo se passou com esta crise. As economias ocidentais e o euro são a casa com os pilares rachados, a crise financeira americana foi o terramoto. Para perceber esse terramoto temos de recuar no tempo e ver o que aconteceu no terramoto anterior, ocorrido em 1929."

"Ou seja, a Grande Depressão", observou Raquel. "Porque diabo vocês, os historiadores, explicam tudo recorrendo ao passado?"

"Porque o passado dá-nos pistas para o presente, ora essa!", exclamou Tomás, defendendo a sua formação académica. "Já viu como para se perceber alguma coisa do presente é preciso conhecer a história?"

Pigarreou. "Recuemos pois aos anos 20. Ao longo de quase toda essa década, a Reserva Federal dos Estados Unidos manteve as taxas de juro artificialmente baixas, o que encorajou os bancos a emprestarem dinheiro em condições arriscadas. Como o dinheiro era tão barato, as pessoas endividaram-se à louca, criando uma bolha de consumo, em particular na bolsa e no imobiliário. Com tanta procura, os preços começaram a subir. Receando que a inflação se descontrolasse, em 1928 o Fed foi forçado a aumentar os juros. Isso fez rebentar a bolha.

Os consumidores viram de repente dificultado o acesso ao crédito a que estavam habituados e, como passaram a ter menos dinheiro, deixaram de pagar as dívidas e de comprar acções, bens e propriedades. Os bancos não conseguiam reaver o dinheiro que 231

haviam emprestado e as empresas produziam bens que ninguém comprava. Sem conseguirem vender, baixavam os preços para atrair clientes, mas o consumo permaneceu baixo porque os juros continuavam altos. As empresas acumularam prejuízos e começaram a falir. Com as empresas a perderem dinheiro ou a fecharem, as acções aceleraram a queda e provocaram o colapso de Wall Street."

"O famoso colapso de 1929, não é?"

"Foi na chamada terça-feira negra. A derrocada da bolsa ameaçou ainda mais a liquidez dos bancos, muitos dos quais tinham investido demasiado em acções. Os depositantes assustaram-se com as informações de que os bancos não estavam bem e correram para levantar os dólares e trocá-los por ouro ou escondê-los debaixo dos colchões. Em vez de injectar dinheiro na economia, onde faltavam dólares, o Fed manteve as taxas de juro altas. Com os cofres vazios, os bancos faliram em cascata. Os que sobreviveram, escaldados, tornaram-se muito conservadores nos empréstimos. Sem os bancos a financiá-las, as acções em baixo e o dinheiro dos consumidores guardado debaixo dos colchões ou em ouro, as empresas não vendiam produtos nem se financiavam, e as insolvências aceleraram. Mais pessoas ficaram sem emprego. O caos espalhou-se pela América e depois pelo mundo."

"Isso é estranho, não é?", interrogou-se Raquel. "Se o problema era americano, porque contagiou o resto do mundo?"

"Porque a Europa vivia à custa de dinheiro que vinha da América. Os Aliados europeus combateram na Primeira Guerra Mundial com dinheiro emprestado pelos bancos dos Estados Unidos.

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