"Eu?" Fez um ar pensativo. "Sei lá, foi há uns quinze anos, tinha acabado de tirar o meu curso de Direito. Porquê?" "Foi fácil convencer o 252
banco?"
"Ui, não. Quiseram ver o meu salário, as minhas condições de trabalho, as minhas contas... foi um inferno." Nova gargalhada.
"Quase só faltou verem-me as cuecas. E só me emprestaram dinheiro porque meti na casa vinte por cento do meu bolso e porque arranjei um fiador. "Fez um ar pensativo. "Ah, e também porque passei no exame de saúde da seguradora. Se não fosse isso..."
"Ou seja, o banco foi muito cauteloso a emprestar-lhe o dinheiro. Quis certificar-se primeiro de que você tinha de facto condições para pagar mensalmente o empréstimo mais os juros."
"Sim, pode dizer-se que foi isso."
"Na avaliação do banco, você era portanto uma cliente com bom rating, chamemos-lhe uma cliente AAA. Foi por isso que lhe emprestaram o dinheiro." Afinou a voz, preparando-se para ir ao ponto principal. "A grande novidade na bolha imobiliária americana é que os bancos se puseram também a emprestar dinheiro para compra de casa a pessoas que ganhavam pouco, clientes BB, ou que tinham rendimentos incertos ou até que estavam desempregadas, clientes CC, alguns deles com historial de não pagarem as suas dívidas. E não lhes exigiam que entrassem nem com um tostão, ouviu'? O banco dava cem por cento do crédito e às vezes dava mesmo cento e vinte por cento, ou seja, mais do que a casa valia."
Raquel carregou as sobrancelhas e fitou-o com uma expressão de incredulidade.
"Está a brincar..."
O português abanou enfaticamente a cabeça.
"Não estou não!", exclamou. "Não se lembra de ver na televisão aqueles anúncios dos bancos a dizer 'o crédito está fácil!', ou 'porque não pedir um emprestimozinho?', ou 'peça... e nós damos!? Em Portugal passava publicidade dessa a toda a hora."
"Tem razão! Em Espanha também."
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"Não achou estranho ver tantos anúncios desses?" A espanhola soltou uma gargalhada.
"Agora que menciona isso, confesso que sim. Como tinha sido muito difícil obter o meu primeiro empréstimo fiquei pasmada com a facilidade com que passaram a emprestar dinheiro. Era para a casa, para o carro, para a escola dos miúdos... até para as férias!
Emprestavam todo o dinheiro que pedíssemos para o que quiséssemos e não tínhamos de entrar com nada! Eram só facilidades!"
Tomás apontou-lhe o dedo.
"Essas facilidades só foram possíveis graças à securitização", atalhou. "O que aconteceu foi que os bancos americanos pegaram em hipotecas de pessoas como você, clientes AAA que podiam pagar o empréstimo, e cortaram-nas em tranches. Depois o que fizeram?
Misturaram uma fatia dos clientes bons pagadores com fatias de clientes medianamente pagadores e com fatias de clientes que teriam dificuldade em pagar, os tais de baixos salários ou até desempregados.
Ou seja, tranches de clientes AAA, BB e CC todas misturadas no mesmo produto."
"Mas.., mas era óbvio que isso ia dar barraca!" "Pois era."
"Então como é possível que uma coisa dessas tivesse ,;ido aceite? Os investidores não perceberam o que estavam a comprar?"
O olhar de Tomás acendeu-se.
"É que os bancos fizeram um truque adicional", revelou.
"Conseguiram que as agências de rating dessem nota máxima a esses produtos de qualidade duvidosa!"
"O quê?", admirou-se Raquel. "Como conseguiram eles uma coisa dessas?"
"Na década de 70, quando a desregulação começou a ganhar terreno, decidiu-se que quem pagava o trabalho das agências de rating era quem emitia os produtos que elas avaliavam. Isso criou um evidente conflito de interesses. Se as agências dependiam de quem 254
emitia os produtos, não lhes interessava desagradar-lhes, não é verdade? Se as avaliações fossem más, os emissores não as pagariam e iam ter com uma agência rival que fosse mais... digamos, simpática.
Portanto, havia que agradar aos emissores dos produtos. Quando os bancos apresentaram às agências as securitizações de hipotecas, chamaram-lhes a atenção para o facto de esses produtos terem fatias de clientes bons pagadores, clientes AAA."
"Mas esses produtos também tinham tranches de clientes CC", lembrou Raquel. "E esses clientes não têm o hábito de pagar o que devem."