"Não pagaram", disse. "Tinham comprado a casa sem meter um tostão seu, pelo que não lhes custou muito devolvê-la no momento em que as prestações mensais encareceram ao ponto de lhes levarem metade dos seus rendimentos mensais. Em vez de pagarem, os clientes CC preferiram entregar as chaves aos credores. Os bancos viram-se de repente com milhares de casas devolutas nas mãos e voltaram a colocá-

las no mercado para venda, mas as coisas já tinham mudado. Os juros estavam a subir, tornando menos atractivo pedir empréstimos para a compra de imóveis, e o regresso dessas casas ao mercado implicou que de repente a oferta disparasse, o que fez baixar os preços do imobiliário. Os clientes BB viram que o valor das casas tinha começado a baixar e... toca a vender, antes que baixasse mais. A oferta disparou e os preços caíram a pique. Em certas zonas da América houve casas que 257

perderam quase sessenta por cento do seu valor."

Raquel voltou a indicar os prédios do outro lado da rua, visíveis da sua janela.

"Exactamente o que aconteceu aqui em Espanha."

"O que se passou aqui, minha cara, foi consequência directa destes acontecimentos na América. Os clientes americanos entraram em default e abandonaram as suas casas em massa. As securitizações das hipotecas, avaliadas em AAA mas carregadas de fatias de obrigações BB e CC, começaram a dar prejuízos tremendos e tornaram-se verdadeiros sorvedouros de dinheiro. Quem as tinha estava tramado. Foi o caso de vários bancos gigantescos que, apesar de terem vendido muitas securitizações, ainda possuíam grandes stocks delas e descobriram que por causa disso se tinham tornado insolventes. O problema é que a falta de regulação permitira que os bancos crescessem tanto que eram agora demasiado grandes para caírem sem riscos para a economia e os banqueiros, que antes exigiam aos altos berros que o estado não interviesse no mercado livre, correram para o estado a suplicar de joelhos que interviesse."

"E o estado interveio?"

"Em grande! A administração Bush, até aí um arauto da desregulação e do não envolvimento cio estado no livre funcionamento do mercado, injectou centenas de milhares de milhões de dólares dos contribuintes em gigantes falidos. Directamente ou através de outras instituições financeiras foram salvos o Bear Stearns, o Merrill Lynch, o Citigroup, o Washington Mutual e o Wachovia, e ainda empresas de hipotecas como a Fannie Mac e o Freddie Mac, que tinham sido incumbidas pelo poder político de ajudar pessoas sem posses a comprar casa e que também se afundaram em securitizações tóxicas. Até a maior seguradora do mundo, a AIG, teve de ser salva com o dinheiro dos contribuintes."

"Isso é irónico", riu-se Raquel. "Já viu? A desregulação, concebida para 258

retirar o estado do mercado, acabou por obrigar à maior intervenção de sempre do estado no mercado."

"Um contra-senso total", concordou o português. "A chatice é que o problema não se ficou pela América, uma vez que muitas dessas securitizações haviam sido vendidas a bancos europeus. O governo britânico teve de nacionalizar os bancos Lloyds, Royal Bank of Scotland e Northern Rock, o governo francês fez o mesmo ao BNP Paribas, o holandês ao ABN Amro e ao Fortis e o suíço ao Crédit Suisse. Até que, quando chegou a vez do americano Lehman Brothers, em Setembro de 2008, a administração Bush decidiu mudar de táctica e deixá-lo falir."

"Ah, lembro-me de ver isso na televisão", observou Raquel. "Foi essa falência que provocou o colapso das bolsas, não foi?"

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