"Mais do que isso, o encerramento do Lehman Brothers, que a desregulação tinha permitido que se tornasse demasiado grande para cair, paralisou a economia quando caiu. Os bancos começaram a ter dúvidas sobre a solvibilidade dos outros bancos e deixaram de lhes emprestar dinheiro, com medo de não o ver de volta. Tal como em 1929, o dinheiro parou de circular. Como os empréstimos foram suspensos, o problema contaminou o resto da economia. As pessoas, por exemplo, deixaram de ter dinheiro para comprar automóveis. As vendas de carros caíram a pique e, sem negócio, construtoras como a General Motors e a Chrysler tiveram de despedir milhares e milhares de trabalhadores. Com a crise a alastrar, os consumidores cortaram nos gastos, deprimindo ainda mais as vendas. A economia e o mercado de trabalho entraram assim em colapso, mas os banqueiros mantiveram os bónus ganhos com a sua gestão danosa e os políticos que levaram a cabo a desregulação assobiaram para o ar como se não tivessem nada a ver com o que estava a acontecer."

"E nós?", quis saber a espanhola. "Como foi que isso afectou a Espanha?"

"Grande parte do crédito fácil na Europa era dinheiro gerado pelas 259

securitizações americanas e pelas taxas de juro muito baixas. Como as taxas subiram e a securitizações começaram a dar prejuízos incríveis, porque as pessoas na América entraram em default no pagamento das suas hipotecas, o dinheiro deixou de fluir para a Europa. O crédito foi cortado e os bancos europeus deixaram de emprestar. Foi por isso que as empresas europeias enfrentaram de repente dificuldades em financiar-se e, sem dinheiro, começaram a abrir falência umas atrás das outras. Com as empresas a fecharem, o desemprego disparou na Europa."

"E veio a crise das dívidas soberanas."

"Sim, mas num segundo tempo. Inicialmente o problema restringiu-se aos bancos e às empresas europeias e aos países europeus fora da zona euro, como a Islândia, os bálticos, a Ucrânia, a Bulgária, a Hungria e a Roménia. A crise da dívida soberana da zona euro só surgiu quando..."

Um estrondo brutal soou no interior do apartamento e uma fumarada cinzenta encheu a entrada como uma nuvem piroclástica. Tomás e Raquel viraram-se para a porta, surpreendidos, e aperceberam-se dos vultos que atravessavam a neblina metálica como espectros fugidios.

Obedecendo ao treino, a agente da Interpol deitou a mão ao coldre escondido debaixo do braço mas teve de se imobilizar.

Três homens apontavam-lhes pistolas.

260

XXXIX

De rostos voltados para a parede, pernas abertas e mãos erguidas, Tomás e Raquel sujeitaram-se à revista que lhes foi feita pelo mais corpulento dos assaltantes que haviam invadido o apartamento. O

homem retirou à agente da Interpol a pistola que ela trazia e, aproveitando o embalo, apalpou-lhe o seio.

"Bom material!"

"Tira a pata daí, cabrón!" , vociferou a espanhola, tentando dar-lhe uma sapatada com o cotovelo. "Não te atrevas a tocar-me com essas mãos de porco!"

O assaltante corpulento travou o braço da agente da Interpol e começou a torcê-lo, mas Decarabia deteve-o.

"Quieto!", ordenou. "Primeiro o trabalho, depois a brincadeira."

O homem ainda manteve o braço de Raquel preso nas mãos, debatendo se deveria obedecer ou desafiar a ordem, mas acabou por largá-

la com relutância e atirá-la contra a parede. Depois encostou-se à mulher e aproximou a boca do seu ouvido esquerdo.

"Quando isto acabar", soprou-lhe entre dentes com uma voz a ressumar agressão, "até vais uivar de prazer, minha linda..."

Com os alvos neutralizados e à sua mercê, Decarabia fez-lhes sinal de que se voltassem e indicou-lhes o sofá. Obedientes, os dois sentaram-se no lugar assinalado e Tomás não pôde deixar de reflectir 261

sobre a ironia de ser a segunda vez que se instalava no mesmo sofá com uma arma apontada à cabeça. Era incrível como desde a véspera a sua vicia pacata se havia transformado num verdadeiro filme de Hollywood.

Dando um passo em frente, Decarabia posicionou-se diante do historiador e curvou-se para ele fitando-o nos olhos com intensidade.

"Lembras-te de mim?"

Tomás observou o rosto que o encarava e um súbito fogacho de reconhecimento iluminou-o.

"És o pistoleiro!", exclamou, estarrecido. "O homem que nos perseguiu por Lisboa e matou o... o..."

"... o teu amiguinho abelhudo", sorriu Decarabia. "Sim, sou eu.

Fico contente por não me teres esquecido." "Meu grande filho da..."

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