Decarabia pegou na chave e estudou-a com atenção. Depois fitou o historiador e estreitou as pálpebras enquanto o examinava, como se visse através dos olhos dele.

"Espero bem que não me estejas a dar tanga", avisou num tom ameaçador. Fez com o cano da pistola um gesto na direcção de Tomás.

"Vá, levanta-te."

O português ergueu-se com um movimento incerto. "Onde vamos?"

"Ao banco, claro." Indicou o seu companheiro mais corpulento.

"Tu vens comigo." Desviou o olhar para o terceiro assaltante. "Tu ficas com ela. Não lhe toques enquanto a operação não estiver concluída, ouviste? Depois faz-lhe o que entenderes."

Raquel trocou com Tomás um olhar de alarme, como se lhe suplicasse que fizesse alguma coisa.

"Ela... ela tem de vir connosco", titubeou o historiador. "Senão não resulta."

Decarabia carregou as sobrancelhas, surpreendido. "Ora essa!

Porquê?"

"Porque se trata de uma conta conjunta", mentiu. "Foi a condição que impusemos para a abertura do cofre. Temos ambos de estar presentes quando ele for aberto. Se não estivermos os dois, 265

nenhum tem acesso ao cofre."

O olhar de Decarabia dançou entre Tomás e Raquel, que confirmou com um movimento afirmativo da cabeça, e voltou a imobilizar-se no português.

"Não disseste que tinhas aberto sozinho a conta no banco?"

Tomás esboçou uma expressão cheia de inocência.

"Eu? Claro que não. Ela foi buscar-me a Madrid e, antes de me trazer aqui a Seseria, recomendou que se guardasse o envelope num cofre. Como vimos o banco ali ao lado, aproveitamos."

-Decarabia desviou o olhar para os companheiros, como se lhes quisesse pedir a opinião, mas depressa percebeu que dali não viria ajuda; aqueles homens eram executores, não planificadores. Respirou fundo e, fitando Tomás, assentiu com um movimento leve da cabeça.

"Muito bem", acabou por decidir. "Vamos todos."

266

XL

O Mercedes dos vidros fumados contornou devagar a rotunda e imobilizou-se junto ao passeio, ao lado da cabina telefónica de onde Tomás ligara nessa manhã para Raquel e para o lar onde a mãe vivia. O

historiador e a agente da Interpol apertavam-se um contra o outro no assento traseiro, em silêncio e sob a vigilância apertada do assaltante corpulento.

Logo que desligou o motor, Decarabia voltou-se para trás e mirou as duas presas.

"Vamos sair agora", anunciou. "Teremos as armas escondidas no bolso dos casacos, prontas para entrarem em acção em caso de necessidade. Não quero nem um gesto em falso, entenderam?"

Apontou para Raquel, mas manteve os olhos fixos no português. "Se alguém do banco se aperceber de alguma anomalia, aqui a nossa beldade leva logo com um balázio nos miolos." Desviou o indicador para Tomás. "E, se as coisas se descontrolarem, tu vais a seguir. Não ficará ninguém para contar a história. Está claro?"

O historiador susteve o seu olhar.

"Se nos abaterem, não poderão aceder ao DVD..."

Decarabia encolheu os ombros com indiferença.

"Que importa isso?", perguntou, alardeando total des-267

preocupação. "A nossa prioridade é neutralizar o DVD. O ideal será ficarmos com ele, claro. Mas se esse material desaparecer por nós tudo bem." Levantou o dedo, à laia de aviso. "Portanto juizinho, hem? Não quero cá brincadeiras."

Depois de deixar por momentos a mensagem assentar nos dois prisioneiros, abriu a porta do condutor e apeou-se. Acto contínuo, as portas traseiras do Mercedes destrancaram-se com um claque simultâneo e os passageiros saíram para a rua. Fazia calor e o sol batia forte, escaldando as faces desprotegidas. Tomás pôs a palma da mão sobre a testa em pala e centrou o olhar na sucursal do banco onde entrara nessa manhã.

"É ali."

Decarabia fez-lhe sinal de que o acompanhasse à frente enquanto os seus dois homens enquadravam Raquel imediatamente atrás. Cruzaram o passeio em grupo e, diante do banco, as portas automáticas abriram-se com um som de aspiração. Entraram na sucursal e Tomás, sempre com toda a trupe no encalço, dirigiu-se directamente ao balcão.

"Olá", disse, cumprimentando a funcionária do guichet. "Queria aceder ao meu cofre, por favor."

"Tem identificação?"

"Está aqui."

O português entregou à funcionária do banco o bilhete de identidade e, preocupado com manter as aparências perante os seus captores, fez sinal a Raquel de que fizesse o mesmo. Na posse de ambas as identificações, a bancária inseriu os dois nomes no computador e aguardou. Ao ver o resultado negativo na busca do nome de Raquel Maria de la Concha González, esboçou um esgar de incompreensão.

"A señorita não está..."

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