Desta vez foi Raquel quem disparou. Atingido no abdómen, o assaltante que viera da porta dobrou-se e caiu para a frente.

Apercebendo-se de que Decarabia já começava a recuperar do electrochoque, Tomás voltou a premir o gatilho do taser na direcção dele, mas a arma desta vez não funcionou; estava descarregada.

Tomando consciência de que a janela de oportunidade se fechava rapidamente, agarrou a espanhola pelo braço e puxou-a.

"Depressa!", gritou, a urgência a dominar-lhe a voz. "Vamos sair daqui antes que eles se recomponham!"

Raquel ainda hesitou, no fim de contas tinha uma Glock na mão, mas percebeu que os seus inimigos lutariam até à morte. Baleara 271

um deles, mas estaria disposta a matar os outros dois enquanto ainda se encontravam indefesos? E quando recuperassem, daí a três ou quatro segundos, deixar-se-iam eles prender? Se não se deixassem, teria coragem de os abater também? A resposta às três perguntas, sabia, era negativa.

"Vamos!", insistiu Tomás em desespero. "Temos de fugir!"

Largaram em corrida, saíram da sala dos cofres e percorreram o corredor até ao átrio. O alarme começou a soar nesse momento no banco, no fim de contas haviam acabado de soar dois tiros no interior do edifício, mas os fugitivos lograram escapar para a rua antes que as portas exteriores se trancassem.

272

XLI

Encontraram abrigo no banco de um parque, onde se sentaram ofegantes depois da longa corrida. O lugar parecia um refúgio seguro, uma vez que estava protegido dos olhares indiscretos por uma fileira de arbustos. Dali viram o Mercedes negro dos vidros fumados esquadrinhar apressadamente as ruas, como se tentasse localizá-los ao mesmo tempo que se assegurava de que não era seguido, e desaparecer por fim em direcção a sul.

"Perderam-nos o rasto", bufou Tomás com alívio. "Acho que estamos safos..."

Ouviram sirenes uivarem no ar e, segundos mais tarde, viram três carros da polícia passar na rua vizinha ao parque com as luzes de emergência a girarem sobre o tejadilho, seguidos por uma ambulância, todos a correrem em direcção ao banco. Já com a respiração regular, Raquel pôs-se de pé " Vamos. "

O português lançou-lhe um olhar admirado, dir-se-ia até alarmado.

"Onde quer ir?"

A agente da Interpol devolveu-lhe o ar surpreendido. "Ter com a polícia, claro", retorquiu. Hesitou perante a expressão inquieta do seu interlocutor. "Porquê?"

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"Está louca?"

"Qual é o problema?"

Tomás apontou com o polegar na direcção onde os carros da polícia tinham desaparecido.

"Se nos pomos nas mãos da polícia, estamos tramados."

A espanhola revirou os olhos, de súbito impaciente.

"Oh, não diga tonterías!", admoestou-o. "Temos de ir ter com a polícia e contar o que aconteceu. Eles vão de imediato lançar um alerta para localizar o Mercedes e deitar a mão àqueles bandidos."

A agente da Interpol fez tenção de se afastar, mas o português agarrou-a pela mão e travou-a.

"Pense, Raquel", implorou. "Estamos a meter-nos com gente muito poderosa. Eles vão virar o bico ao prego e... e acusar-nos de termos morto o segurança do banco."

"Que disparate!"

"Acha que sim? Então deixe-me fazer-lhe uma pergunta: depois de tudo o que aconteceu nas últimas horas ainda acha que matei o Filipe?"

"Claro que não. No apartamento em Sesefia eu própria ouvi um dos tipos dizer que tinha sido ele quem..."

"Então por que razão ando fugido?", perguntou Tomás, desferindo o seu ataque. "Então por que razão a polícia portuguesa está à minha procura e enviou para a Interpol informações a dizer que eu era um homicida? Porquê?"

Os dois ficaram de olhar trancado um no outro, ele a fazer valer os seus argumentos, ela a ponderá-los. O seu interlocutor tinha acabado de lembrar razões muito pertinentes, percebeu Raquel. Havia verdade no que acabara de ouvir.

"Acha mesmo que eles nos vão acusar de... de ter morto o segurança do banco?"

Tomás manteve o olhar firmemente cravado nela.

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"Tenho a certeza", garantiu. "Provavelmente não de imediato. Os tipos estão em fuga e ainda têm de informar os seus chefes do sucedido. Mas daqui a algumas horas verá como a posição da polícia mudará. Vão logo aparecer testemunhas de que eu ou você abatemos o segurança e quando dermos por ela estamos apanhados." Pousou a palma da mão no peito. "Eles conseguiram pôr a minha fotografia na televisão, veja lá! O Filipe foi morto pelo fulano que comandava este grupo e os gajos conseguiram transformar-me em principal suspeito!"

Apontou na direcção onde os carros da polícia haviam mergulhado.

"Se nós nos apresentarmos, estamos tramados. Ouviu? Tramados!"

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