"Ela veio comigo", apressou-se Tomás a dizer, antes que a bancária estragasse tudo. "Bem vê, o cofre tem os nossos pertences."

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A funcionária encolheu os ombros; não era anormal nem irregular, embora não fosse usual uma pessoa aceder ao seu cofre na companhia de amigos. Identificou no sistema o nome de Tomás Noronha e certificou-se de que a fotografia era da pessoa encostada ao balcão.

Deitou uma última espreitadela ao ecrã do computador e encarou de novo o cliente.

"A conta foi aberta esta manhã, não foi?", perguntou em jeito retórico, como se falasse consigo mesma e não esperasse resposta. "Tem a chave do cofre?"

O historiador tirou-a do bolso e mostrou-a.

"Está aqui."

A bancária ergueu-se por momentos de modo a ver por cima do balcão, varreu o átrio com os olhos e, lobrigando o segurança que vigiava o acesso ao banco, fez-lhe sinal a indicar o cliente.

"Estebán, acompanha os senhores ao cofre, por favor."

O segurança indicou o caminho e viu o grupo de cinco pessoas seguir-lhe os passos; franziu o sobrolho, não era comum tanta gente ir visitar um cofre, mas nada o interditava e por isso ficou calado e seguiu em frente. Meteram pelo corredor e chegaram a uma porta metálica, que o homem do banco abriu ao inserir um código num teclado digital pregado à parede.

Entraram na sala dos cofres e Tomás, instado por Decarabia, voltou-se para o segurança.

"Muchas gracias", agradeceu. "Eu sei qual é o nosso cofre. Pode aguardar lá fora, por favor."

O segurança deu meia volta e regressou para junto da porta da sala dos cofres. Decarabia fez com a cabeça sinal ao seu acompanhante mais ágil, indicando-lhe o guarda do banco.

"Fica com ele", sussurrou. "Neutraliza-o em caso de necessidade."

O operacional foi para a porta, deixando os seus dois 269

companheiros com os dois reféns. Os quatro ficaram todos muito juntos diante do cofre. Pareciam uma matilha bizarra, e Tomás, sentindo-se apertado, voltou-se para Decarabia.

"Dêem-me espaço!", protestou. "Assim não me consigo mexer."

"Não quero que te mexas", cortou o seu captor com um sorriso insidioso. "Abre o cofre e cala-te."

Com um trejeito de desagrado, o português voltou-se para o cofre e introduziu a chave. A porta destrancou-se com um dique suave e, como a caverna de Ali Babá, desvendou o seu segredo. Os olhares inquisitivos dos assaltantes precipitaram-se para o interior obscurecido, tentando destrinçar o que ele escondia. Apenas se via um sobrescrito volumoso pousado na base do cofre, mas na sombra era difícil determinar se não haveria ali mais alguma coisa.

"É aquele o envelope", disse Tomás. Abriu no rosto um sorriso convidativo. "Quer retirá-lo?"

Decarabia fitou-o nos olhos, desconfiado; o sorriso da sua presa não lhe inspirou confiança. Haveria ali alguma armadilha?

"Tira-o tu."

Era o que o português queria ouvir.

Inseriu a mão no interior do cofre e sentiu os dedos deslizarem sobre a superfície lisa do envelope. Meteu-os dentro do sobrescrito, como se a sua mão fosse uma aranha que explorava o desconhecido, e agarrou o objecto duro e frio que se ocultava no interior.

O taser.

Encheu a mão com ele, acomodando-o na palma e pôs o indicador no gatilho. Fechou os olhos e respirou fundo, preparando-se mentalmente para o momento decisivo que aí vinha. Contou em silêncio até três e, com um gesto fulminante, retirou-o de repente do cofre e apontou-o ao peito de Decarabia.

Carregou no gatilho.

Soou um estalido e o captor gritou de dor. Apercebendo-se que 270

algo de terrivelmente errado se passava, o assaltante corpulento retirou a Glock que escondia no bolso, mas não teve tempo de actuar porque Tomás já tinha voltado para ele o taser e disparado uma nova descarga eléctrica.

Alertados pelos berros junto ao cofre, os dois homens que aguardavam à porta entraram na sala, o assaltante já com a pistola na mão, o segurança sem perceber o que sucedia.

"Qué pasa?", perguntou, estupefacto. "Que está a acontecer?"

Nesse momento Raquel mostrou o que valia o seu treino. Vendo os dois captores a contorcerem-se de dores no chão, a agente da Interpol precipitou-se sobre o homem mais corpulento e arrancou-lhe a Glock da mão.

Soou um tiro.

O corpo do segurança tombou no chão, a cabeça desfeita como uma melancia em pedaços; o assaltante abatera-o para não interferir no que tinha de fazer. Afastado o empecilho, saltou para o corredor dos cofres de modo a ficar em linha com os alvos, os braços estendidos para a frente e as duas mãos a segurarem a pistola, um dedo colado ao gatilho preparado para abrir fogo.

Novo tiro.

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