Abruptamente, os olhos de ambos desviaram-se para a porta, pois alguém mexia na maçaneta. Mas a porta estava trancada.

— Passei o trinco enquanto você dormia. — Ela riu, como uma menina empenhada numa brincadeira. A maçaneta tornou a se mexer.— Os criados sempre entram sem bater. Precisam aprender algumas lições.

— Amo! — gritou o criado. — O chá!

— Diga a ele para ir embora, e voltar daqui a cinco minutos.

Struan, contagiado pelo prazer de Angelique, gritou a ordem em cantonês, e o homem se afastou, resmungando. Ela riu.

— Deve me ensinar a falar chinês.

— Tentarei.

— Como se diz “Eu amo você”?

— Eles não têm uma palavra para amor, não como nós.

Angelique franziu o rosto.

— Que coisa mais triste!

Ela foi até a porta, puxou o trinco, soprou um beijo para Struan e desapareceu no quarto contíguo.

Malcolm Struan ficou olhando para a porta que dava para o outro quarto, ansioso. E depois ouviu os sinos mudarem, tornando-se mais insistentes, e se lembrou: a missa!

Sentiu um aperto no coração. Não havia pensado nisso, que ela era católica. Sua mãe era uma devota intransigente da igreja anglicana, ia ao serviço duas vezes no domingo, o pai também, todos os filhos, em procissão, assim como as demais famílias decentes de Hong Kong. Católica?

Ora, não faz diferença, eu... não me importo. Preciso tê-la, disse a si mesmo, a ânsia saudável e voraz pulsando por todo o corpo, predominando sobre a dor. E de qualquer maneira!

Naquela tarde, quatro suados carregadores japoneses pousaram no chão a arca com cintas de ferro, observados por três funcionários subalternos do Bakufu, Sir William, intérpretes, um oficial do departamento de contas do exército, um shroff da legação, chinês, e Vargas, incumbido de fiscalizá-lo.

Estavam na principal sala de recepção da legação, as janelas abertas, com Sir William determinado a não se mostrar radiante. Com um floreado, um dos representantes do Bakufu exibiu uma chave e abriu a arca. Lá dentro, havia dólares de prata mexicanos, umas poucas barras de ouro de tael e algumas de prata.

— Pergunte por que a indenização não é toda em ouro, como combinamos.

O intérprete fez a pergunta, e depois traduziu a resposta:

— Ele diz que não conseguiram obter o ouro a tempo, mas que os dólares mexicanos são limpos, uma moeda legal, e agradeceria se lhe déssemos um recibo.

Moedas “limpas” eram aquelas que não tinham sido raspadas ou cortadas com a remoção de uma parte da prata, o que constituía uma prática comum! Enganando-se os incautos.

— Comecem a contar.

Feliz, o shroff da legação despejou o conteúdo da arca no tapete. No mesmo instante avistou uma moeda aparada, e Vargas outra, e mais outra. Foram postas de lado. Todos os olhos fixavam-se no tapete, nas pilhas crescentes de moedas. Cinco mil libras esterlinas era uma quantia considerável, quando se levava em consideração que um intérprete em tempo integral ganhava quatrocentas por ano e ainda tinha de pagar seus alojamentos, um shroff recebia cem (embora uma boa porcentagem de tudo o que passava por suas mãos encontrasse um jeito de permanecer grudada nelas), um criado em Londres vinte por ano, um soldado cinco pence por dia, um marujo seis, um almirante seiscentas libras por ano.

A contagem foi efetuada depressa. Os dois shroffs verificaram duas vezes o peso de cada barra de ouro, e depois o peso das pilhas de moedas desbastadas, usando um ábaco para calcular o total, contra a taxa de câmbio atual. Vargas anunciou:

— Temos quatro mil e oitenta e quatro libras, seis xelins e sete pence, Sir William, em moedas limpas, quinhentas e vinte libras em ouro, noventa e duas libras em moedas cortadas, dando um total de quatro mil, seiscentas e noventa e sete libras, dois xelins e sete pence.

— Desculpe, senhor, mas são oito pence.

O chinês acenou com a cabeça, o rabicho longo e grosso balançando, efetuando o pequeno ajuste, acertado de antemão com Vargas, decidindo que a quantia que seu equivalente português deduzira, para honorários de ambos, dois e meio por cento, ou cento e dezessete libras, oito xelins e seis pence, era menos do que ele manobraria para tirar, mas aceitável, por meia hora de trabalho. Sir Willian disse:

— Vargas, guarde tudo na arca, dê-lhes um recibo, com a ressalva de que a parte a menos será acrescentada no próximo pagamento. Johann, agradeça e avise que esperamos todo o resto, em ouro, dentro de dezenove dias.

Johann obedeceu. No mesmo instante, o intérprete japonês iniciou uma longa declaração.

— Eles pedem agora uma extensão do prazo, senhor, e...

— Não haverá nenhuma extensão do prazo.

Sir William suspirou, ignorou a presença dos outros e preparou-se para mais uma hora de conversa interminável, fechando os ouvidos, até que, surpreso, ouviu Johann dizer:

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