Malcolm struan emergiu do sono devagar. Os sentidos sondaram, testaram. Já conhecia a dor mental, perdera dois irmãos e uma irmã; a angústia causada pela embriaguez do pai, e seus crescentes acessos de raiva; de mestres impacientes; de sua necessidade obsessiva de se superar, porque um dia seria o
Mas agora, como nunca antes, precisava testar o nível de seu despertar, sondar a profundeza da dor física que teria de suportar hoje, como uma nova norma, ignorando os súbitos e terríveis espasmos que chegavam sem qualquer aviso ou lógica.
Apenas uma dor latejante, mas melhor do que ontem. Quantos dias desde a estrada de
Malcolm permitiu-se despertar um pouco mais. Não restava a menor dúvida, melhor do que ontem. Olhos e ouvidos abertos agora. O quarto firme, na claridade do amanhecer. Céu claro, vento ameno, sem tempestade.
A tempestade cessara dois dias antes. Fustigara por oito dias, com a força de um tufão, e desaparecera tão depressa quanto surgira. A esquadra ancorada diante de Iedo se dispersara no primeiro dia, procurando a segurança em alto-mar. Entre todos os navios de guerra, só a nave capitânia francesa, a primeira a deixar Iedo, conseguira retornar sã e salva a Iocoama. Nenhum outro navio voltara até agora. Ainda não havia motivos de preocupação, mas todos observavam o horizonte, apreensivos, torcendo e orando.
Durante a tempestade, um navio mercante fora lançado para a terra, ern Iocoama, alguns prédios foram avariados, muitos cúteres e barcos de pesca se perderam, a devastação assolara a aldeia e Yoshiwara, várias barracas no acampamento militar foram levadas pelo vendaval, mas não houvera baixas, nem ali, nem na colônia.
Tivemos muita sorte, pensou Struan, concentrando-se em seguida no problema central de seu universo. Posso sentar?
Uma tentativa hesitante, meio desajeitada. Ai! Dor, mas não muito intensa, fez força com os dois braços e ergueu o tronco, as mãos apoiadas por trás.
Suportável. Melhor do que ontem. Ele esperou um momento, depois inclinou-se para a frente, ergueu um braço de apoio, com extremo cuidado. Ainda suportável. Removeu o outro braço. Ainda suportável. Empurrou as cobertas para o lado, e tentou, cauteloso, estender as pernas para o chão. Mas não conseguiu, a pontada de dor foi grande demais. Uma segunda tentativa, outro fracasso.
Não importa, tornarei a tentar mais tarde. Baixou o corpo para o colchão, tão gentilmente quanto podia. Quando removeu o peso da cintura, transferindo-o para as costas, soltou um suspiro de alívio.
— Paciência, Malcolm — dizia Babcott todos os dias, em cada visita... três ou quatro por dia.
— Que se dane a paciência!
— Concordo... mas você está se recuperando bem.
— Mas quando posso me levantar?
— Agora, se assim quiser... mas eu não aconselharia.
— Quanto tempo?
— Mais umas poucas semanas.
Ele praguejava furioso, mas de certa forma sentia-se satisfeito por aquela folga. Proporcionava-lhe mais tempo para considerar como iria lidar com o fato de ser agora o
— O que me diz das armas para
— Tenho uma idéia. Deixe comigo.
— Norbert já farejou as possibilidades desses
— Que se danem Norbert e a Brock! Seus contatos não são tão bons quanto os nossos, e Dmitri, Cooper-Tillman e a maioria dos outros mercadores americanos na China estão do nosso lado.
— Mas não no Havaí — ressaltara McFay, amargurado.
Na última correspondência, dez dias antes — e desde então não houvera mais notícias, pois o vapor bimensal só deveria voltar dentro de cinco dias —, Tess Struan escrevera: