Yoshi sentira um calafrio, temeroso de que o homem estivesse se tornando perigoso demais para continuar vivo, já poderoso demais para ser neutralizado, arguto demais, contando com o apoio de um enxame de bandos à disposição, sempre prontos a se submeterem à sua vontade...

Uma silhueta se aproximou da porta, quase silenciosa. Sem sequer pensar, Yoshi estendeu a mão direita para a espada comprida, no chão, ao seu lado, embora reconhecesse a silhueta. O vulto se ajoelhou. Uma batida delicada.

— Oque é?

Ela abriu a porta, sorrindo, fez uma reverência, e esperou.

— Entre, por favor, Koiko — murmurou Yoshi, satisfeito com a visita inesperada, todos os seus demônios desaparecendo.

Ela obedeceu, fechou aporta, correu para ele, o quimono estampado comprido farfalhando, tornou a se ajoelhar, comprimiu o rosto contra a mão de Yoshi, ao mesmo tempo em que notava o poema.

— Boa noite, Sire.

Ele riu, abraçou-a com ternura.

— A que devo este prazer?

— Senti saudade. Posso ver seu poema?

— Claro.

Enquanto Koiko estudava o poema, Yoshi a contemplava, um prazer constante para ele, nos trinta e quatro dias em que ela se encontrava no castelo. Roupas extraordinárias. A pele mais pura, como casca de ovo, cabelos pretos reluzentes, que desciam até a cintura quando eram soltos, nariz delicado, os dentes tão brancos quanto os de Yoshi, em vez de escurecidos, como era a moda na corte.

— Uma estupidez! — dissera-lhe o pai, assim que ele tinha idade suficiente para compreender.— Por que deveríamos escurecer nossos dentes só porque é um costume da corte, iniciado há séculos por um imperador que tinha dentes velhos e podres, e por isso determinou que ter dentes pintados era superior a ter dentes como os dos animais? E por que usar tinta em nossos lábios e faces, como alguns ainda fazem, porque outro queria ser mulher, não homem, e assim fingia, sendo imitado pelos cortesãos, que queriam conquistar seus favores?

Koiko tinha vinte e dois anos, Tayu, o mais alto grau possível de gueixa no mundo do salgueiro.

Tendo ouvido comentários a seu respeito, alguns meses antes, Yoshi sentira-se curioso, mandara chamá-la, desfrutara sua companhia e depois, há meses, ordenara que a mama-san de Koiko apresentasse uma proposta para seus serviços permanentes. Como era correto, a proposta fora encaminhada à esposa de Yoshi, que cuidaria do assunto. Ela lhe escrevera do Dente do Dragão, o castelo da família:

Amado marido: Concluí hoje um acordo satisfatório com a mama-san para a Tayu Koiko, da Casa da Glicínia. Senhor, consideramos que é melhor ter sua exclusividade do que uma primeira opção para seus serviços, e também mais seguro, já que se encontra cercado por inimigos. A seu critério, o contrato é renovável todos os meses, o pagamento será mensal, ao término de cada período, para garantir que os serviços serão mantidos no nível mais elevado, como deve esperar.

Sua consorte e eu nos sentimos satisfeitas por ter decidido contratar uma diversão, pois estávamos e continuamos muito preocupadas com sua saúde e segurança. Permita-me cumprimentá-lo por sua escolha, pois corre o rumor de que Koiko é de fato extraordinária

Seus filhos estão bem e felizes, assim como sua filha e eu. Enviamos nossa eterna lealdade e ansiamos por sua presença. Por favor, mantenha-me informada sobre como devo orientar nosso Pagador para reservar recursos...

Corretamente, a esposa não mencionara a quantia, nem isso seria de seu initeresse, pois se tratava de uma função básica dela, administrar e guardar a riqueza da família, pagar todas as contas. Koiko levantou os olhos.

— Seu poema é impecável, Yoshi-chan — murmurou ela, batendo palmas, o chan um diminutivo íntimo.

— Você é impecável — disse Yoshi, disfarçando seu prazer por aquele Julgamento.

Além dos excepcionais atributos físicos, Koiko tinha renome em Iedo por sua caligrafia, a beleza de seus poemas e a astúcia na arte e política.

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